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O Banco do Brasil (BB) quer transformar sua expertise no crédito consignado do setor público em uma vantagem competitiva para crescer com força no recém-lançado consignado privado, voltado a trabalhadores com carteira assinada (CLT). Oficializado na sexta-feira (21) pelo governo federal por meio do Programa Crédito ao Trabalhador, o novo produto é visto pela instituição como uma oportunidade estratégica para expandir sua atuação no mercado de crédito pessoal.
Atualmente, o BB possui uma carteira de R$ 138,7 bilhões em crédito consignado, o que representa 20,2% do total dessa modalidade no país. No entanto, apenas R$ 2 bilhões desse montante estão ligados ao setor privado, distribuídos entre 8 mil convênios com empregadores. Segundo dados do Banco Central, o estoque total do consignado privado alcançou R$ 41,1 bilhões até fevereiro. Diante desse cenário, o banco enxerga uma oportunidade de crescimento expressivo.
“Temos o consignado no nosso DNA. Somos líderes de mercado com mais de 20% de participação. Essa nova fronteira no setor privado representa uma grande chance para ampliarmos nossa presença. Nossa liderança consolidada no consignado nos oferece uma base sólida para atuar com competitividade na nova linha de crédito do trabalhador”, afirmou Antonio Chiarello, diretor de Empréstimos e Financiamentos do BB.
Mesmo antes do lançamento oficial do programa, o Banco do Brasil já se preparava para entrar forte nesse mercado. Em fevereiro, iniciou uma campanha interna de captação de clientes e estruturou ofertas iniciais para a nova modalidade, aproveitando o momento para alinhar estratégia e operação.
Durante a coletiva sobre os resultados de 2024, a presidente do BB, Tarciana Medeiros, deixou claro que a meta é superar os concorrentes. “No consignado privado, queremos crescer mais do que o mercado. Espero que o presidente Lula fique feliz com a gente”, declarou.
Para se destacar, o banco lançou campanhas publicitárias e desenvolveu um processo de análise de crédito que avalia não apenas o perfil do trabalhador, mas também as condições financeiras da empresa empregadora. A análise inclui o uso de dados do Open Finance, o que amplia a precisão na avaliação de risco e personaliza as propostas de empréstimo.
Embora o BB não tenha divulgado uma meta de crescimento específica para o consignado privado, Chiarello sinalizou que o produto deve se tornar um pilar importante da expansão do crédito para pessoa física em 2025. A expectativa da instituição é de um crescimento entre 7% e 11% no crédito às famílias este ano. “Vamos continuar acelerando com qualidade, segurança e rentabilidade. O BB será forte no crédito pessoa física e no consignado”, reforçou o diretor.
Um movimento estratégico deve partir da atual carteira de crédito pessoal do banco, que soma cerca de R$ 10 bilhões em contratos com trabalhadores do setor privado que recebem salário pelo BB. Esse público é visto como um alvo natural para migração ao novo consignado.
Segundo as regras do governo, nos primeiros 120 dias de operação, os trabalhadores só poderão contratar um novo consignado privado se renegociarem contratos antigos de crédito pessoal ou consignado já existentes. Além disso, os bancos são obrigados a oferecer taxas menores nesse processo de migração.
No primeiro dia de funcionamento da nova linha, o BB já apresentou ofertas mais vantajosas aos seus clientes. Um exemplo real foi o caso de um vendedor de 26 anos, funcionário de uma empresa atacadista. Ao solicitar um crédito de R$ 11 mil pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital, ele recebeu uma proposta do BB com parcela mensal de R$ 678,66 — um alívio de R$ 523,49 em relação à sua prestação atual de R$ 1.202,15. A taxa de juros caiu de 7,59% ao mês para 2,66%, com prazo de 24 meses.
O banco também se prepara para avanços futuros no programa. A partir de junho, a modalidade contará com portabilidade de crédito entre bancos, e, em julho, será possível incluir como garantia até 10% do saldo do FGTS, além da multa rescisória em caso de demissão sem justa causa.
Para Chiarello, essas inovações reforçam o papel estratégico do BB na oferta de crédito responsável e adaptado à nova realidade do mercado. “Essa linha reduz o risco da carteira, impulsiona novos negócios e se baseia em um modelo que o BB domina há décadas. É uma evolução natural dentro da nossa estratégia de diversificação de portfólio”, concluiu.