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O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas sobre todas as importações do país acendeu um sinal de alerta nos mercados internacionais. De acordo com análise do JP Morgan, a medida representa um risco considerável para a estabilidade econômica global, levando o banco a elevar de 40% para 60% a probabilidade de uma recessão nos Estados Unidos — e, por consequência, no restante do mundo.
Para o banco, as novas políticas comerciais do governo Trump representam um choque macroeconômico de grandes proporções, que não estava contemplado nos cenários-base das projeções anteriores. “As políticas disruptivas dos EUA foram reconhecidas como o maior risco para as perspectivas globais durante todo o ano”, afirmou Bruce Kasman, economista-chefe do JP Morgan e líder da equipe de pesquisa econômica global.
A medida, anunciada na última quarta-feira (2), estabelece uma tarifa mínima de 10% sobre todas as importações dos Estados Unidos, com taxas ainda mais elevadas aplicadas a países como China e membros da União Europeia. Ao todo, 185 países serão atingidos, incluindo o Brasil, que será afetado pela tarifa mínima.
As maiores alíquotas, de 50%, serão impostas a parceiros comerciais menores como Lesoto e Saint-Pierre e Miquelon, enquanto a maioria dos países terá que arcar com os 10% de tarifa base. O governo norte-americano aplicou uma fórmula padronizada, sem análise individualizada por produto ou país. O cálculo incluiu uma taxa adicional proporcional ao déficit comercial dos EUA com cada nação.
No entendimento do JP Morgan, essa estrutura tarifária tem potencial para gerar o maior aumento de impostos indiretos sobre famílias e empresas americanas desde 1968, o que pode comprometer seriamente o consumo e os investimentos domésticos. Para Kasman, o conjunto das medidas representa uma guinada do governo Trump, que havia prometido preservar a expansão econômica dos EUA em um eventual novo mandato. “A combinação de políticas dos EUA parece estar se afastando ainda mais do apoio à expansão atual da economia”, avaliou.
O banco não descarta a possibilidade de que as tarifas sejam reavaliadas ou parcialmente revertidas, mas alerta que, caso sejam mantidas nos moldes anunciados, a recessão se tornará uma consequência inevitável. A elevação de preços, o impacto direto sobre as cadeias de suprimentos e o aumento do custo de vida devem pressionar a economia americana e gerar efeitos colaterais nos mercados emergentes e nas grandes economias exportadoras.
Com a decisão de Trump, a política de “reciprocidade tarifária” ganha contornos agressivos e imprevisíveis. Em vez de negociações bilaterais ou estudos técnicos, o governo optou por impor um modelo padronizado, aumentando as tensões comerciais em escala global e reacendendo temores de uma nova guerra comercial. O impacto nos mercados já começou a ser sentido, com analistas e investidores revisando suas projeções de crescimento e inflação para os próximos trimestres.