A economia brasileira deverá atravessar 2026 com crescimento mais moderado e dependente do consumo das famílias e do setor de serviços, segundo análises de economistas consultados pelo Estadão/Broadcast. A avaliação é de que o agronegócio, responsável por uma parcela relevante da expansão do PIB em 2025, perderá força no próximo ano, reduzindo sua capacidade de impulsionar a atividade econômica.
De acordo com projeções consolidadas no boletim Focus, do Banco Central, o Produto Interno Bruto deve crescer 1,8% em 2026, após avanço estimado de 2,3% em 2025. Pelos cálculos dos economistas, cerca de 59% dessa expansão virá do setor de serviços, que engloba comércio, transportes, sistema financeiro e outros segmentos ligados diretamente ao mercado de trabalho e à renda das famílias.
Para Gabriel Couto, economista do Santander, mesmo com juros elevados, o consumo tende a seguir resiliente. Ele avalia que o mercado de trabalho ainda robusto deve sustentar ganhos reais de renda ao longo do ano, reforçados por medidas de estímulo adotadas pelo governo. Couto destaca a isenção do imposto de renda para salários de até R$ 5 mil e a nova linha de crédito consignado para trabalhadores do setor privado como fatores que ajudam a amortecer os efeitos do aperto monetário sobre a atividade.
Na mesma linha, Natalia Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, observa que o desempenho mais fraco do agronegócio em 2026 decorre tanto de uma base de comparação elevada quanto de condições climáticas menos favoráveis. Segundo ela, a produção agrícola não deverá repetir os resultados excepcionais de 2025, quando a safra recorde ajudou a compensar os primeiros impactos da alta dos juros sobre a economia.
As estimativas indicam que a agropecuária deve crescer cerca de 2% em 2026, após expansão de mais de 10% no ano anterior. Caso esse cenário se confirme, a contribuição do setor para o PIB cairá para aproximadamente 6%, bem abaixo dos 26% registrados em 2025. Além disso, os preços internacionais dos grãos seguem pressionados por uma oferta global mais elevada em um ambiente de desaceleração econômica mundial.
Com os juros ainda em patamar restritivo, os economistas avaliam que a indústria continuará enfrentando dificuldades, sobretudo nos segmentos mais dependentes de crédito, como construção civil, bens duráveis e máquinas e equipamentos. Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, afirma que os investimentos devem sentir os efeitos do custo elevado do dinheiro, enquanto o consumo das famílias se consolida como o principal vetor de crescimento em 2026.
Honorato ressalta que o setor de serviços tende a manter ritmo de crescimento semelhante ao de 2025, apoiado pela resiliência do mercado de trabalho e por políticas de estímulo à renda. Já a indústria de transformação, segundo ele, deve apresentar desaceleração mais acentuada, refletindo o ambiente financeiro restritivo, a menor utilização da capacidade instalada e um nível de confiança ainda moderado.
Em resposta enviada por sua equipe macroeconômica, o BTG Pactual acrescenta que eventos como a Copa do Mundo devem impulsionar segmentos específicos do varejo, como alimentos, bebidas e eletroeletrônicos, ao longo do ano. O banco também aponta a elevação do salário mínimo como fator adicional de sustentação da demanda.
Por outro lado, os analistas alertam que o elevado endividamento das famílias permanece como um risco relevante para 2026, com potencial para limitar a expansão do crédito e impor restrições adicionais ao ritmo de crescimento da economia brasileira.










