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Analistas veem menos espaço para grandes cortes da Selic em 2026

Economistas questionam magnitude do ciclo de cortes diante de atividade resiliente

A resiliência da atividade econômica brasileira, mesmo com a taxa básica de juros no maior patamar em quase duas décadas desde meados de 2025, tem levado analistas a reavaliar a extensão do ciclo de flexibilização da política monetária do Banco Central. Essa leitura ficou evidente nas reuniões realizadas nesta sexta-feira entre diretores da autoridade monetária e economistas de mercado, na sede do BC em São Paulo.

Segundo participantes dos encontros, houve uma percepção disseminada de menor convicção em relação a cortes mais profundos da Selic ao longo de 2026. Embora o consenso ainda aponte para uma taxa próxima de 12% ao fim do ciclo, os dados recentes de atividade econômica e do mercado de trabalho têm alimentado dúvidas sobre a viabilidade de uma redução dessa magnitude.

Na avaliação de um dos economistas presentes, fatores como a volatilidade cambial associada ao calendário eleitoral e às incertezas geopolíticas tornam o ambiente menos favorável a um processo de desinflação contínuo e previsível. Segundo ele, esses elementos reduzem o conforto para uma flexibilização monetária mais agressiva.

Outro ponto destacado nas discussões foi o esgotamento de vetores que contribuíram para a desaceleração da inflação em 2025. A sobreoferta de bens industriais decorrente do tarifaço adotado pelos Estados Unidos, a queda nos preços de alimentos e a valorização do real frente ao dólar tiveram papel relevante no processo desinflacionário, mas não devem se repetir com a mesma intensidade neste ano.

De acordo com um dos participantes, mesmo analistas que projetam a Selic em torno de 12% — ou ligeiramente abaixo — passaram a questionar se esse patamar é compatível com o atual nível de incerteza e com um ambiente em que a desinflação ainda não está plenamente assegurada.

Outro economista ouvido relatou que o mercado demonstrou maior ceticismo quanto à possibilidade de um corte acumulado de até 3 pontos percentuais na taxa básica ao longo de 2026. Ainda assim, o consenso segue apontando para o início do ciclo de flexibilização em março, embora sem definição clara sobre a magnitude do primeiro ajuste, se de 0,25 ou 0,5 ponto percentual.

Nas projeções discutidas, a expectativa para o IPCA deste ano gira em torno de 4%, com estimativas marginalmente acima ou abaixo desse nível. Para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2026, os cenários variam entre crescimento próximo de 1,5%, em leituras mais cautelosas, e até 2% entre analistas que enxergam uma economia ainda resistente ao aperto monetário.

A avaliação predominante é de que os dados mais fracos observados em parte de 2025 podem não ter representado uma tendência duradoura, percepção reforçada pela robustez do mercado de trabalho. Esse fator, segundo os analistas, limita o espaço para uma política monetária significativamente mais estimulativa no curto prazo.

No cenário externo, a visão majoritária apresentada nas reuniões é de um ambiente ainda relativamente benigno para a inflação, com o dólar enfraquecido e o petróleo operando próximo aos níveis atuais. Mesmo assim, a expectativa é de que uma eventual apreciação adicional do real ocorra de forma mais moderada em 2026, em comparação com o movimento observado no ano anterior.

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