O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, defendeu nesta segunda-feira que a política monetária não é o principal fator por trás das dificuldades financeiras recentes de empresas como GPA, Raízen e Ambipar, mas reconheceu que o mecanismo de transmissão dos juros mais elevados pelo canal de crédito está em pleno funcionamento. A declaração foi feita durante evento do J. Safra.
Para Galípolo, os eventos de crédito recentes não têm uma causa única e cada caso precisa ser analisado individualmente. Há situações que decorrem de problemas de governança corporativa, outras que refletem questões estruturais de setores específicos e outras ainda que são genuinamente consequência do aperto da política monetária e do ciclo econômico. “Não acho que nesses casos a política monetária seja o principal, mas, quando a gente olha para o impulso de crédito, ele já está em um campo negativo, e há um encarecimento do custo de crédito. É assim que a política monetária funciona mesmo. É o mecanismo de transmissão”, afirmou.
A distinção que o dirigente faz é relevante do ponto de vista institucional. Ao diferenciar casos de governança ruim ou problemas setoriais específicos dos casos genuinamente cíclicos, Galípolo evita uma narrativa que coloque o Banco Central como responsável direto pela crise de crédito corporativo, ao mesmo tempo em que reconhece que os juros elevados têm efeitos reais sobre o custo do crédito e a capacidade das empresas de se financiar, resultado esperado e desejado da política monetária contracionista.
No plano internacional, Galípolo destacou que as preocupações fiscais nos Estados Unidos e o nível de endividamento dos países avançados desde a pandemia estão no radar do BC. O aumento do endividamento público global durante a covid-19 gerou mais pressão sobre as emissões e a rolagem de dívida soberana, o que por sua vez eleva o custo de financiamento dos países emergentes, incluindo o Brasil. O dirigente também abordou o debate sobre inteligência artificial e a necessidade de que as empresas de tecnologia demonstrem geração de receita capaz de sustentar os valuations elevados que o mercado lhes atribui, num contexto em que as expectativas de ganhos de produtividade da IA ainda precisam se materializar em resultados concretos.










