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Parceria Argentina-EUA reorganiza forças no Cone Sul e amplia incertezas para o Brasil

Cooperação Argentina-EUA cria incertezas para exportações do Brasil e reacende debate sobre a estrutura do Mercosul

A aproximação entre Argentina e Estados Unidos reacendeu discussões sobre a capacidade de integração do Mercosul em um momento em que o bloco enfrenta divergências internas e pressões externas. Mesmo diante do distanciamento político entre os governos de Brasil e Argentina, especialistas apontam que a institucionalidade do grupo ainda funciona como fator de estabilidade. Para analistas, uma ruptura seria improvável, especialmente porque o custo econômico para os argentinos seria elevado em meio às dificuldades financeiras enfrentadas pelo país.

A cooperação firmada entre Donald Trump e Javier Milei, no entanto, trouxe novos elementos à dinâmica regional, sobretudo pela possibilidade de mudanças nos fluxos de comércio. A relação direta com Washington ocorre em um contexto em que os Estados Unidos buscam reduzir a presença chinesa na América Latina, movimento que se reflete na tentativa de ampliar espaço em setores estratégicos do mercado argentino. Dados oficiais indicam que, entre janeiro e outubro de 2025, os americanos representaram pouco mais de 9% das importações da Argentina, com destaque para combustíveis e energia.

Embora a iniciativa gere expectativas de investimentos, parte da indústria argentina demonstra preocupação com a falta de modernização produtiva e com o risco de maior competição com manufaturados americanos. O setor empresarial, por outro lado, observa oportunidades em áreas como energia e mineração, consideradas prioritárias pelo governo Milei. Para o Brasil, o impacto imediato tende a ser limitado, já que a economia argentina representa parcela menor de seu comércio externo, mas algumas cadeias podem sentir pressões adicionais.

Entre os segmentos acompanhados de perto está o de máquinas e equipamentos. O setor brasileiro tem nos Estados Unidos seu principal destino de exportações, e a Argentina aparece como segundo mercado relevante. Mesmo com a redução de tarifas decorrente do acordo Argentina-EUA, analistas avaliam que o efeito sobre o Brasil tende a ser restrito, já que máquinas e equipamentos circulam de forma isenta no comércio bilateral. De janeiro a outubro, o Brasil respondeu por quase um quarto das importações argentinas nessa área, enquanto os Estados Unidos tiveram participação menor.

A perda de competitividade industrial acumulada pela Argentina nas últimas duas décadas também limita a possibilidade de substituição direta de fornecedores. O país tornou-se mais dependente de importações, tanto do Brasil quanto de China e Estados Unidos, o que enfraquece a capacidade local de competir com produtos estrangeiros. Esse cenário se soma às concessões previstas no acordo, que incluem a aceitação automática de normas técnicas americanas, e que geraram questionamentos sobre o equilíbrio da negociação.

Representantes do setor privado argentino ponderam que os efeitos concretos ainda dependem de detalhes e de novas reuniões entre Trump e Milei, uma delas marcada para 6 de dezembro em Washington. O desenho final do acordo definirá o impacto sobre as cadeias produtivas, especialmente porque, até o momento, a relação tem sido percebida como mais vantajosa aos americanos. O empréstimo-ponte de US$ 20 bilhões concedido pelos Estados Unidos em outubro reforçou a velocidade da aproximação diplomática.

As possíveis consequências comerciais também chamam atenção no Brasil. A professora Marcela Franzoni, do Ibmec, destaca que o acordo pode afetar setores tradicionais, sobretudo automotivo, dada a relevância histórica da Argentina como destino de veículos leves, motores e acessórios brasileiros. Entre janeiro e outubro, quase metade das exportações do Brasil ao país vizinho esteve concentrada nesses produtos. A entrada de itens americanos mais baratos poderia reduzir a competitividade da indústria brasileira em um mercado consolidado.

As afirmações ganham peso em um quadro em que as exportações brasileiras para a China permanecem amplamente concentradas em petróleo e grãos, elevando a dependência de setores primários. Paralelamente, a semelhança entre as estruturas produtivas de Brasil e Argentina torna o comércio entre os dois países particularmente sensível a alterações externas. A possibilidade de novos acordos envolvendo parceiros como os Estados Unidos tende a gerar instabilidade em contratos já consolidados dentro do Mercosul.

Além do efeito sobre setores específicos, especialistas avaliam que a aproximação de Buenos Aires com Washington reforça um movimento mais amplo de flexibilização do Mercosul. A defesa por um modelo mais voltado ao livre-comércio cresce há anos, impulsionada pelo aumento das vendas diretas dos países sul-americanos à China, o que reduz a lógica de integração produtiva do bloco. Para Franzoni, os países da região seguem privilegiando negociações bilaterais com grandes potências, o que dificulta avanços multilaterais mais profundos.

Mesmo com potenciais riscos comerciais, algumas vantagens estratégicas permanecem para o Brasil. A forte capacidade produtiva das commodities brasileiras mantém a Argentina dependente de insumos essenciais. Representantes da Câmara de Comércio Argentina-Brasil observam que determinados impactos podem ser mitigados pelo perfil da economia do país vizinho, cuja dimensão é cerca de um quarto da brasileira. Setores específicos, como o de carnes argentinas, podem se beneficiar do acesso ampliado ao mercado americano, mas enfrentam limitações internas, como a necessidade de recompor rebanhos.

Enquanto isso, o Brasil mantém superávit expressivo no comércio com a Argentina. Entre janeiro e outubro, a diferença favoreceu os brasileiros em US$ 5,1 bilhões, com quase 6% das exportações nacionais destinadas ao país vizinho. Mais de 4,5% das importações brasileiras também vieram da Argentina, movimento impulsionado por produtos automotivos e insumos industriais.

A redistribuição de fluxos comerciais promovida pelo acordo ocorre em um cenário em que o Brasil também mantém relação importante com os Estados Unidos, especialmente no campo de commodities como grãos e óleos. Eventuais mudanças provocadas pela aproximação Argentina-EUA podem gerar ajustes em ambas as pontas, embora especialistas ressaltem que ainda faltam detalhes para medir os efeitos de forma conclusiva.

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