A alta de 0,70% do IPCA-15 em setembro mudou a leitura sobre a trajetória da inflação nos últimos meses de 2026. Economistas avaliam que o período de resultados mais favoráveis iniciado em junho perdeu força e que alimentos e transportes podem dificultar o retorno da inflação para dentro do intervalo da meta até dezembro.
O avanço do índice já era esperado por causa do fim do efeito do bônus de Itaipu sobre as contas de energia. A surpresa esteve na intensidade: as projeções dos analistas estavam próximas de 0,50%, mas pressões adicionais em alimentação e transportes levaram o resultado acima das estimativas.
Alimentação e Bebidas avançou 0,40% em setembro, depois de cair 0,57% no mês anterior. Dentro de casa, a mudança foi ainda mais expressiva: a alimentação no domicílio saiu de queda de 0,97% para alta de 0,38%.
Entre os produtos que mais pressionaram os preços, o tomate subiu 20,76%, enquanto o arroz avançou 2,39% e as carnes, 1,30%. Para Renato Veloni, economista do Ibmec-SP, o comportamento merece atenção porque agosto e setembro costumam apresentar inflação mais baixa dos alimentos.
Os transportes também passaram de queda de 1% em agosto para avanço de 0,60% em setembro. As passagens aéreas, que haviam recuado 13,30%, subiram 9,82%. Os combustíveis tiveram alta de 0,30%, após queda de 1,23% no mês anterior.
Com o resultado, o IPCA-15 acumulado em 12 meses passou de 4,24% para 4,47%, aproximando-se do teto do intervalo da meta de inflação. No acumulado de 2026, o índice chegou a 3,82%.
Para terminar o ano dentro do teto, a inflação acumulada nos três meses restantes teria de ficar em aproximadamente 0,68%. Veloni considera esse cenário pouco provável, principalmente porque o fim do ano costuma apresentar maior pressão sobre os preços e existe o risco adicional de impactos climáticos sobre os alimentos.
O economista projeta inflação entre 4,70% e 4,80% no fechamento de 2026. Na avaliação dele, isso não significa necessariamente uma aceleração abrupta dos preços, mas indica maior probabilidade de o índice terminar o ano pouco acima do limite superior da meta.
Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, também avalia que o IPCA-15 de setembro pode marcar o encerramento da sequência de notícias mais favoráveis observada desde junho, período que incluiu a deflação registrada em agosto.
Outro ponto de atenção é o El Niño. Matheus Dias, pesquisador do FGV Ibre, ressalta que o impacto do fenômeno sobre a inflação de alimentos não ocorre de maneira uniforme. Diferentes culturas respondem de formas distintas às alterações de temperatura e ao regime de chuvas.
O risco, segundo Dias, está principalmente no intervalo entre o plantio e a chegada de novas safras. Caso as condições climáticas prejudiquem a produção, a redução temporária da oferta pode provocar aumentos rápidos em determinados alimentos.
A deterioração do cenário também apareceu nas estimativas do Banco Central. A instituição elevou de 70% para 90% a probabilidade calculada de a inflação terminar 2026 acima do teto da meta. O comportamento dos alimentos, dos combustíveis e dos serviços nos próximos meses será decisivo para definir a magnitude desse desvio.










