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O Programa Crédito ao Trabalhador, lançado pelo governo federal e aberto ao público nesta sexta-feira (21), promete injetar recursos na economia ao oferecer uma nova linha de crédito consignado privado para trabalhadores com carteira assinada. Embora a medida possa estimular o consumo em um momento de juros elevados, economistas alertam para seus efeitos colaterais sobre a inflação e o risco de inadimplência.
A proposta do governo busca oferecer uma alternativa de financiamento mais barata que cartões de crédito ou empréstimos rotativos, permitindo que milhões de brasileiros troquem dívidas caras por outras com juros mais baixos. Com isso, os consumidores ganham fôlego no orçamento, o que pode impulsionar as compras no curto prazo. No entanto, especialistas ponderam que esse alívio financeiro imediato pode pressionar ainda mais a inflação e dificultar o trabalho do Banco Central em conter o superaquecimento da economia.
Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), enxerga a medida com bons olhos. Para ele, a substituição de dívidas com juros abusivos por opções mais acessíveis é positiva, especialmente em um cenário em que as famílias enfrentam forte endividamento. Ainda assim, ele alerta para os riscos. “O crédito mais barato pode ser interpretado como um incentivo ao consumo, e não necessariamente como uma ferramenta para reduzir o endividamento”, afirma. “No curto prazo, o impacto será positivo, mas pode gerar desequilíbrios adiante.”
Além disso, Bentes destaca que a inadimplência já dá sinais de alta. Dados do Banco Central mostram que o crédito com recursos livres para pessoa física apresentou inadimplência de 5,5% em janeiro, acima dos 5,3% registrados em novembro. “Nos últimos meses, a inadimplência voltou a subir, e isso, combinado com o mercado de trabalho aquecido, pode levar as famílias a se endividarem mais. Se o novo crédito for usado para ampliar dívidas em vez de substituí-las, o quadro pode se agravar”, ressalta.
De fato, o nível de endividamento das famílias já vem subindo. Em dezembro de 2023, o comprometimento de renda com dívidas atingiu 48,32%, o maior patamar desde junho do mesmo ano. O dado evidencia a dificuldade dos lares brasileiros em lidar com o custo do crédito, especialmente num ambiente de política monetária restritiva.
Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências, também reconhece que o novo crédito pode estimular a economia, mas ressalta que ele surge num momento em que o ideal seria o consumo arrefecer. “Ao melhorar o espaço no orçamento das famílias, o crédito abre margem para mais gastos. Mas o cenário atual exige exatamente o contrário: esfriar a atividade para conter a inflação”, explica. A Tendências projeta crescimento de 1,7% no consumo das famílias em 2024 — bem abaixo dos 4,8% registrados em 2023 — e o menor avanço desde 2010, desconsiderando os anos de crise.
Apesar disso, Ribeiro não acredita que a nova modalidade vá aumentar a inadimplência de forma significativa. Para ela, o crédito consignado tem natureza mais controlada e, se bem utilizado, pode até reduzir o risco de calote. Já a economista Katherine Hennings, do FGV IBRE, tem uma visão mais cautelosa. Ela teme que muitos trabalhadores, especialmente os de renda mais baixa, usem o crédito para assumir novas dívidas em vez de substituir as antigas. “Se a economia desacelerar e o desemprego crescer, essas pessoas continuarão endividadas. E são justamente elas que já enfrentam altos índices de inadimplência e sofrem mais com a inflação”, aponta.
Hennings ressalta ainda a necessidade urgente de ampliar o letramento financeiro da população. “A gestão dessa nova modalidade não é trivial. Muitas pessoas não entendem que o consignado compromete parte da renda por um período longo, e isso pode se tornar uma armadilha no futuro”, adverte.
Delber Lage, CEO da SalaryFits, avalia que a nova regulamentação do consignado privado pode ampliar o acesso ao crédito, já que elimina a exigência de intermediação do RH das empresas. No entanto, ele lembra que a taxa de juros pode variar bastante, dependendo do perfil do empregador. “Empresas pequenas ou com alta rotatividade tendem a pagar juros mais altos”, explica.
Lage também chama atenção para o modelo atual de leilão entre bancos, que tende a gerar uma precificação média, elevando os juros. A partir de 25 de abril, no entanto, as instituições financeiras poderão originar o crédito diretamente por seus próprios canais, o que pode aumentar a competitividade e melhorar as condições para os consumidores.
“Existe, sim, a perspectiva de uma forte injeção de crédito na economia, o que é interessante para o governo em ano pré-eleitoral. Mas é preciso observar a premissa de que esse crédito será, de fato, mais barato para todos — o que nem sempre será verdade”, destaca Lage. Ainda assim, ele se mostra otimista com o futuro da modalidade. “Com os avanços tecnológicos e a automatização dos processos, o mercado tende a amadurecer e oferecer condições melhores nos próximos meses.”