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O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou nesta segunda-feira (31) que o principal objetivo da autoridade monetária continua sendo alcançar a meta de inflação de 3%. Durante evento online promovido pelo Itaú BBA, David destacou que, sem comprometer essa meta, o BC também atua para suavizar os ciclos econômicos e buscar um equilíbrio entre inflação e atividade.
Segundo ele, decisões recentes, como o aumento de 1 ponto percentual na taxa Selic em dezembro, foram tomadas com o objetivo de ancorar as expectativas e acelerar o alcance de uma taxa de juros suficientemente restritiva. No entanto, ele ponderou que movimentos mais agressivos têm o custo de não permitir a observação dos efeitos da política monetária com o tempo necessário. A calibragem dos próximos passos, explicou, dependerá do comportamento da inflação e das expectativas do mercado nos próximos meses.
David também ressaltou que o BC precisou levar a taxa Selic a um patamar mais alto do que seria necessário em condições normais, considerando que algumas empresas têm acesso a linhas de crédito mais baratas, via programas incentivados. Apesar dos sinais de desaceleração econômica, ele reforçou que a política monetária é guiada principalmente pela inflação. Para o diretor, conduzir um "pouso suave" da economia brasileira segue sendo um desafio.
Durante o mesmo evento, ele observou que, apesar da valorização recente do real, as expectativas de inflação medidas pelo boletim Focus aumentaram. Segundo ele, isso pode indicar que o mercado não vê a valorização da moeda como algo permanente ou que outros fatores estão pesando mais nas projeções. David lembrou ainda que a volatilidade do câmbio é historicamente alta, com variações médias de até 1% ao dia, o que dificulta qualquer tentativa de ajustar a política monetária com base em oscilações cambiais pontuais.
“Não é razoável mudar o viés da política monetária por uma variação que pode ser apenas ruído”, afirmou o diretor, reforçando que não há relação direta entre o câmbio e as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom).
Outro ponto abordado foi a separação entre política monetária e medidas macroprudenciais. Segundo David, essa divisão é uma diretriz clara dentro do Banco Central, com esforços constantes para evitar que uma política interfira na outra. Ele classificou a separação como uma “quase obsessão” dentro da instituição.
Ao comentar a relação entre mercado de ações e juros, David disse acreditar que a correlação será retomada no médio e longo prazo, embora admita que o cenário atual — marcado por incertezas e mudanças políticas nos Estados Unidos — tenha criado distorções temporárias. Segundo ele, a combinação de fatores globais gerou uma espécie de "tempestade perfeita" que explica o descolamento atual entre os dois indicadores.
Sobre a demanda por crédito, o diretor avaliou que a recente onda de procura pode estar chegando ao fim. Ele atribuiu esse movimento a fatores específicos, como mudanças na legislação sobre investimentos offshore e a realocação de recursos de fundos multimercado para o mercado de crédito. Estima-se que cerca de R$ 400 bilhões tenham migrado para esse segmento, incentivando um aumento na oferta de crédito mesmo com a Selic em patamares elevados.
David também comentou que há quase duas décadas o sistema financeiro global tenta reduzir a dependência dos bancos na concessão de crédito, o que vem pressionando as instituições a exigirem mais capital e lidarem com maiores custos. Como consequência, o mercado desenvolveu mecanismos alternativos para fazer o crédito chegar ao consumidor final.
Segundo ele, apesar da política monetária apertada, continua sendo mais barato para empresas tomarem crédito no Brasil do que no exterior. Isso tem levado companhias a pré-pagar dívidas internacionais e buscar financiamento local. Ainda assim, o diretor acredita que esse movimento está próximo do esgotamento e que os preços do crédito tendem a se normalizar ao longo do tempo.
Por fim, David destacou que a tendência de maior regulação nos mercados de crédito, inspirada nos parâmetros internacionais definidos por Basileia, não é exclusiva do Brasil. Para ele, esse processo global é necessário para garantir a estabilidade econômica e reduzir riscos sistêmicos. Ele concluiu afirmando que, apesar das distorções momentâneas, a tendência é que os preços do crédito voltem gradualmente a patamares mais condizentes com o cenário econômico do país.