Economistas esperam um BC 'mais brando' nas próximas reuniões do Copom
Publicidade
Carregando anúncio...
Desde a última reunião do Copom, as projeções do mercado para a inflação seguiram desancoradas

O Banco Central elevou a taxa básica de juros, a Selic, em 1 ponto percentual, atingindo 14,25% ao ano, cumprindo as expectativas do mercado. A principal dúvida antes da decisão era se a autoridade monetária forneceria um novo guidance (projeção futura). No comunicado divulgado após a reunião, o BC manteve aberta a possibilidade de mais uma alta, mas de menor magnitude, levando economistas a projetarem um ajuste adicional de pelo menos 0,5 ponto percentual, elevando a Selic para 14,75%.

Com essa elevação, os juros atingiram o maior patamar em mais de oito anos, após cinco aumentos consecutivos. A última vez que a Selic esteve nesse nível foi em 2016, quando permaneceu nesse patamar até outubro, durante a crise econômica e o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Para Marcos Moreira, sócio da WMS Capital, o próximo encontro do comitê pode sinalizar uma abordagem mais branda, já que será o primeiro sem um guidance definido antes da mudança na liderança do BC.

Um dos fatores que podem aliviar a pressão por novos aumentos nos juros é a recente valorização do real frente ao dólar. Nessa quarta-feira (19), o câmbio fechou em queda de 0,42%, com o dólar atingindo seu menor valor desde 14 de outubro, a R$ 5,5827. Moreira destacou que, com o dólar abaixo de R$ 5,80, os juros podem parar nos 15%, diferente do cenário anterior, que previa uma Selic acima desse patamar caso o câmbio se mantivesse consistentemente acima de R$ 6,20.

Se a taxa de câmbio continuar nesse nível, a necessidade de aumentos adicionais pode ser reduzida. Além disso, o BC mencionou o ambiente externo desafiador, citando incertezas sobre a política comercial dos Estados Unidos sob a nova administração de Donald Trump, que recentemente impôs tarifas de importação. A guerra comercial em curso pode impactar as economias emergentes, tornando a política monetária brasileira ainda mais dependente dos desdobramentos no cenário internacional.

A mudança no tom do comunicado do Banco Central levou instituições financeiras a ajustarem suas previsões. A Ativa Investimentos destacou que o BC deu um sinal brando, mencionando que a desaceleração da economia foi classificada como incipiente e que as incertezas e defasagens do aperto monetário justificam a moderação nos próximos passos.

A instituição espera que o BC eleve os juros em mais 50 pontos-base na próxima reunião e finalize o ciclo com uma alta residual de 25 pontos, encerrando a Selic em 15%. Já o Banco BMG interpretou o comunicado de forma diferente, indicando que o Banco Central sinalizou que a alta será de, no máximo, 50 pontos-base e que esse será o último movimento deste ciclo.

Segundo a instituição, o ponto de dúvida dessa decisão estava muito mais na comunicação para os próximos encontros, confirmando suas expectativas de que a Selic não subirá muito além do que já foi anunciado. Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom Investimentos, destacou que espera novas altas, mas em menor intensidade, especialmente se os preços começarem a se estabilizar.

Para ele, a projeção é um aumento de 0,5 ponto percentual na próxima reunião, pois o tom do BC sugere uma possível correção inflacionária nos próximos meses.

Por outro lado, Adriana Dupita, vice-economista-chefe para mercados emergentes da Bloomberg, alertou que sinalizar uma menor alta na reunião de maio pode ser precipitado, considerando eventos econômicos relevantes que ainda estão por vir. Segundo ela, o envio da LDO 2026 no dia 15 de abril pode sinalizar o compromisso do governo com a estabilização da dívida, além das novas rodadas da guerra comercial dos EUA. Esses fatores podem influenciar na decisão do Copom em maio.

Desde a última reunião do Copom, as projeções do mercado para a inflação seguiram desancoradas. O Boletim Focus apontou que a previsão do IPCA para 2025 subiu de 5,50% em janeiro para 5,66% nesta semana. Já para 2026, a expectativa passou de 4,22% para 4,48%, o que preocupa a autoridade monetária.

No entanto, o Banco Central fez ajustes leves em suas projeções de inflação. No cenário de referência, que acompanha as expectativas de mercado para os juros, a previsão de inflação para 2025 caiu de 5,2% para 5,1%. Para o terceiro trimestre de 2026, atual horizonte relevante para a política monetária, a projeção foi ajustada de 4,0% para 3,9%.

O BC também reduziu a taxa de câmbio utilizada em suas projeções, passando de R$ 6,00 na reunião de janeiro para R$ 5,80 agora. Isso reflete a valorização do real nas últimas semanas, o que pode contribuir para conter a inflação ao longo do ano.

O centro da meta de inflação definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para 2025 e 2026 é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

A decisão do Banco Central ocorreu no mesmo dia em que o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve a taxa básica de juros americana entre 4,25% e 4,50%. As autoridades monetárias dos EUA indicaram que ainda preveem uma redução de 0,50 ponto percentual nos juros até o final do ano, mas destacaram que o cenário global permanece incerto.

Com a recente escalada das tarifas de importação promovida pelo governo Trump, há preocupações sobre o impacto dessa política na inflação global. O BC destacou em seu comunicado que essas incertezas podem afetar a condução da política monetária brasileira nos próximos meses.

A elevação da Selic para 14,25% reflete o compromisso do Banco Central em controlar a inflação, mas o tom mais brando do comunicado sinaliza que o ciclo de alta pode estar próximo do fim. Com o câmbio mais estável e as expectativas de inflação ligeiramente ajustadas, economistas agora projetam um aumento final de 0,5 ponto percentual, encerrando o ciclo em 15%. No entanto, fatores externos, como a guerra comercial entre os EUA e seus parceiros, podem mudar esse cenário e influenciar as próximas decisões do Copom.

redacao
Conta Oficial Verificada