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Os principais executivos do setor bancário brasileiro projetam uma desaceleração na emissão de títulos locais em 2025, após um volume recorde registrado no ano passado. Com os custos de captação mais elevados e um cenário econômico menos favorável, muitas empresas estão optando por adiar novas emissões e aguardar melhores condições de mercado.
"O ano passado foi excepcional, as empresas aproveitaram taxas mais baixas e spreads reduzidos para captar recursos, mesmo sem necessidade imediata. Agora, muitas delas não têm pressa para emitir novos títulos", explicou Felipe Wilberg, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA, em entrevista.
Em 2024, as empresas brasileiras emitiram um total de R$ 498,24 bilhões em títulos locais, quase o dobro do volume registrado em 2023, segundo dados da Bloomberg. O Itaú BBA liderou esse mercado, respondendo por cerca de 23% das operações. No entanto, o cenário já mostra sinais de retração. Nos primeiros meses de 2025, as emissões totalizaram R$ 28,6 bilhões, representando uma queda de 29% em relação ao mesmo período do ano anterior. O aumento dos spreads e a redução dos prazos das operações são alguns dos fatores que explicam essa desaceleração.
A mudança nas condições de mercado já era perceptível no final de 2024. "Vimos dificuldades na distribuição de algumas transações de títulos locais devido à deterioração econômica e à perspectiva de juros mais altos", afirmou Marcelo Marangon, presidente do Citi no Brasil. O Banco Central retomou um ciclo de aperto monetário em setembro, elevando a taxa Selic em quase três pontos percentuais desde então. O aumento da taxa básica, somado à alta do dólar e à volatilidade dos juros futuros em dezembro, impactou o custo do crédito e alterou a dinâmica de financiamento das empresas.
O crescimento econômico também deve perder fôlego este ano. Economistas projetam uma expansão do PIB de 2,1% em 2025, abaixo dos 3,3% registrados no ano anterior. Esse cenário pode levar as empresas a revisarem seus planos de investimento e reduzirem sua demanda por financiamento. Um exemplo dessa mudança é a Raízen, gigante do setor sucroalcooleiro e de biocombustíveis. A companhia, fruto da parceria entre a Cosan e a Shell, está avaliando a venda de ativos e suspendendo projetos de novas usinas para controlar sua dívida, conforme revelou o presidente Nelson Gomes durante a teleconferência de resultados em 17 de fevereiro.
Apesar da retração no mercado de títulos locais, as emissões globais de empresas brasileiras seguem aquecidas. Em 2024, os emissores brasileiros captaram US$ 29,6 bilhões no mercado internacional, um crescimento de 57% em relação ao ano anterior. O Citi liderou esse segmento, segundo dados da Bloomberg. No início de 2025, o ritmo continua acelerado, com US$ 11,7 bilhões em emissões externas, um aumento de 63% sobre o mesmo período do ano passado.
No entanto, o acesso ao mercado global continua restrito a empresas com maior solidez financeira. "Nem todas as companhias conseguem emitir no exterior. Os investidores internacionais priorizam emissores frequentes ou aqueles com forte posição de mercado", explicou Marangon. Enquanto fusões e aquisições e a reestruturação de dívidas podem impulsionar novas operações, Wilberg avalia que 2025 deve apresentar um cenário de estabilidade em comparação com o ano passado, sem o mesmo volume expressivo de emissões registrado em 2024.