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O novo modelo de crédito consignado voltado a trabalhadores com carteira assinada entrou em vigor na última sexta-feira (21), mas ainda não conta com a adesão em massa dos principais bancos do país. Instituições como Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Nubank e Santander ainda estão em fase de testes e ajustes operacionais, e a expectativa é que passem a ofertar o produto de forma mais ampla apenas a partir de 25 de abril, quando poderão integrar o consignado CLT às suas próprias plataformas.
Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), é comum que novas linhas de crédito passem por fases-piloto antes da liberação completa ao público. O objetivo é testar sistemas, ajustar fluxos internos e se familiarizar com as plataformas governamentais envolvidas. “Todo produto bancário novo, especialmente um com potencial de alcançar 47 milhões de trabalhadores, exige cuidado na implementação”, afirmou a entidade em nota.
Enquanto os grandes bancos aguardam, a Caixa Econômica Federal já saiu na frente e passou a ofertar o consignado pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital. As taxas de juros variam entre 1,60% e 3,17% ao mês, conforme o perfil de crédito do solicitante. Outras instituições menores também já começaram a operar, como o banco Safra e financeiras como Parati (meutudo) e Facta.
Apesar do entusiasmo com o potencial do produto, desafios técnicos ainda impedem a plena operação. A plataforma do governo, por exemplo, enfrenta ajustes no eSocial e na Dataprev. Uma falha identificada recentemente calculava a margem consignável com base no salário bruto, e não no líquido, o que poderia comprometer o limite de endividamento dos trabalhadores. Além disso, consignados securitizados por fintechs fora do sistema estavam sendo ignorados, abrindo brecha para duplicidade de contratos.
Fernando Perrelli, presidente da fintech BYX Capital, afirma que o produto “veio para ficar”, mas reconhece os entraves operacionais. “A plataforma está evoluindo no dia a dia e vamos aprender a operar com segurança”, disse.
Márcio Feitoza, presidente da meutudo, que adquiriu a fintech Parati em 2024, reforça que os grandes bancos costumam adotar uma postura mais cautelosa, entrando no mercado após observarem o desempenho de concorrentes menores. “Eles também buscam evitar o canibalismo do consignado em relação ao crédito pessoal que já oferecem internamente”, explicou.
A expectativa do mercado é de que muitos trabalhadores migrem de empréstimos pessoais, com juros médios de 5,93% ao mês, para o novo consignado CLT, cujas taxas são consideravelmente mais baixas. A princípio, isso pode representar uma queda na rentabilidade para os bancos, mas o volume maior de contratações tende a compensar o impacto ao longo do tempo.
Segundo dados atualizados até as 17h desta terça-feira (25), o novo consignado CLT já movimentou R$ 340,3 milhões, com 48 mil contratos firmados e valor médio de R$ 7.065,14 por operação. De acordo com Feitoza, cerca de 80% dos contratantes já possuíam um crédito pessoal ativo, e 30% eram clientes da Parati.