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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nessa quarta-feira (2) que o processo de desobstrução dos canais de transmissão da política monetária no Brasil exigirá um esforço contínuo e não poderá ser resolvido com uma solução rápida ou isolada. A declaração foi feita durante um evento em comemoração aos 60 anos do BC, em meio a discussões sobre os desafios da política monetária no país.
Segundo Galípolo, a fluidez desses canais é menor no Brasil em comparação com outras economias, principalmente devido à presença de mecanismos como os créditos subsidiados. Ele destacou que normalizar esses canais é essencial para que doses menores da política monetária sejam suficientes para surtir efeito na economia, mas reconheceu que o caminho será longo e dependerá de reformas estruturais, muitas das quais estão fora da alçada direta do Banco Central.
"Desobstruir esses canais, normalizar esses canais para que a gente possa ter doses menores do remédio fazendo o mesmo efeito no paciente, é um desafio, acho que geracional", afirmou. Ele reforçou que não há uma solução única e que a trajetória passará por uma série de mudanças institucionais e legais, a serem construídas ao longo do tempo.
A fala ocorre em um momento em que o Banco Central elevou a taxa Selic para 14,25% ao ano, reiterando a importância de manter os canais de política monetária livres de distorções para que os instrumentos adotados tenham eficácia. Apesar do aperto monetário, analistas do mercado vêm manifestando preocupação com medidas do governo que podem pressionar a atividade econômica no sentido oposto, dificultando o combate à inflação.
Entre as ações destacadas estão a liberação de saques do FGTS e o novo programa de estímulo ao crédito consignado voltado para trabalhadores do setor privado, que, segundo especialistas, podem ampliar o consumo e reduzir o impacto esperado da alta dos juros.
Durante o mesmo evento, Galípolo reforçou o compromisso do Banco Central com a independência, enfatizando que as decisões da autarquia seguem critérios técnicos e objetivos. O discurso recebeu apoio de outras autoridades presentes.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o governo respeita a autonomia do BC e continuará oferecendo os subsídios necessários para embasar suas decisões. Já a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, demonstrou otimismo com o cenário inflacionário. Ela disse esperar uma desaceleração dos preços nos próximos dois meses, o que, segundo ela, abriria espaço para um corte na Selic ainda no segundo semestre, "um pouquinho antes do imaginado".