Os títulos de dívida internacional da Raízen Energia passaram por uma abertura relevante de spreads nos últimos dias, refletindo o aumento da aversão ao risco entre investidores e especulações sobre a possibilidade de uma recuperação judicial. Em meio a esse movimento, o JPMorgan revisou sua avaliação e elevou a recomendação da companhia para overweight, classificando a reação do mercado como excessiva diante dos fundamentos atuais.
Segundo os analistas do banco, a curva de dívida da Raízen abriu entre 50 e 110 pontos-base em um intervalo de apenas dois dias. Com isso, os bonds passaram a ser negociados a um rendimento ao pior entre 10% e 10,9%, enquanto os preços médios em dólar recuaram para a faixa de US$ 76. Para o JPMorgan, esse nível de estresse embute um prêmio de risco que não se justifica no cenário-base da companhia.
A deterioração do sentimento ocorreu após a Cosan anunciar o resgate antecipado de títulos e a consequente eliminação da cláusula de vencimento antecipado cruzado. Na avaliação do JPMorgan, a decisão foi interpretada pelo mercado como um sinal de menor comprometimento da controladora com a estrutura de capital da Raízen, o que alimentou temores sobre a disposição do grupo em oferecer suporte financeiro em um cenário adverso.
Apesar dessa leitura, o banco afirma que uma recuperação judicial não está no radar no momento. A análise destaca que a Raízen mantém uma posição de liquidez considerada confortável, apoiada por caixa disponível, linhas de crédito e um plano avançado de desinvestimentos. Além disso, há expectativa de melhora no fluxo de caixa livre ao longo de 2026, o que reforça a capacidade da companhia de atravessar o atual período de pressão sem recorrer a medidas extremas.
Outro ponto ressaltado é o impacto positivo esperado da entrada de recursos oriundos de vendas de ativos realizadas no ano passado, mas ainda não refletidas integralmente no balanço. De acordo com o JPMorgan, esses recebimentos somam cerca de US$ 755 milhões e devem se materializar ao longo de 2026. Considerando esses valores e as demais fontes de liquidez, o banco estima que a Raízen dispõe atualmente de aproximadamente US$ 5,3 bilhões para enfrentar seus compromissos financeiros.
Ainda assim, o JPMorgan enfatiza que a elevação da recomendação tem caráter tático e de curto prazo, baseada principalmente na assimetria de preços observada nos bonds. Segundo o banco, a estrutura de capital da companhia permanece pressionada e não será resolvida apenas com ajustes operacionais ou venda pontual de ativos. Na visão dos analistas, apenas uma nova injeção relevante de capital teria potencial para endereçar de forma definitiva o nível de alavancagem.
O relatório também detalha os principais riscos associados à tese. Resultados operacionais abaixo do esperado, uma postura mais agressiva em investimentos ou distribuição de recursos aos acionistas, além de quedas nos preços do açúcar ou do etanol, poderiam deteriorar rapidamente o quadro financeiro. Por outro lado, a eventual venda de ativos na Argentina é vista como um possível catalisador positivo, embora insuficiente, isoladamente, para alterar o perfil de risco de crédito.
Do ponto de vista das agências de rating, o JPMorgan observa que a estrutura atual da Raízen não sustenta um grau de investimento. Pelos critérios usualmente adotados, seria necessária uma alavancagem líquida inferior a 2,5 vezes o Ebitda, enquanto a expectativa é que a companhia encerre o exercício fiscal com um múltiplo próximo de 4 vezes. Nos cálculos do banco, para resolver plenamente a questão da estrutura de capital, seria necessária uma captação adicional de aproximadamente US$ 3 bilhões.









