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Seis cortes de 0,50 ponto na Selic estão no radar, diz ex-diretor do BC

Ex-diretor do BC avalia cenário monetário, caso Master, câmbio e atividade econômica

O ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Reinaldo Le Grazie, projeta um ciclo consistente de flexibilização monetária ao longo de 2026, com a realização de seis cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual na taxa Selic. Na avaliação do economista, esse movimento levaria os juros básicos para 12% ao ano ao fim do próximo exercício, em um processo gradual, mas bem sinalizado pela autoridade monetária.

A análise foi apresentada em entrevista ao programa Capital Insights, do CNN Money, em parceria com a Broadcast. Segundo Le Grazie, a comunicação recente do Comitê de Política Monetária (Copom) foi adequada ao preparar o mercado para o início do ciclo de cortes. Para ele, a sinalização feita na última decisão abre espaço para que, já na reunião de março, o Banco Central ofereça indicações mais claras sobre o ritmo de flexibilização ao longo do ano.

Apesar da expectativa de queda da Selic, o ex-diretor pondera que o patamar dos juros seguirá elevado em termos reais. Com inflação controlada, uma taxa básica em torno de 12% ainda implicaria juros reais próximos de 9%, nível que considera restritivo. Nesse ambiente, Le Grazie avalia que os ativos de renda fixa continuarão oferecendo retornos atrativos, mantendo o interesse dos investidores mesmo com o início do ciclo de cortes.

Ao comentar os desdobramentos do caso Banco Master, Le Grazie defendeu a atuação do Banco Central, afirmando que a autoridade monetária seguiu os protocolos técnicos de supervisão e adotou as medidas previstas na regulação. Para ele, processos de intervenção e liquidação fazem parte do funcionamento regular de sistemas financeiros maduros e ocorrem com frequência em países como os Estados Unidos. O ponto específico do episódio, segundo o economista, está nos indícios de fraude identificados, e não em falhas estruturais do arcabouço regulatório.

Na avaliação de Le Grazie, o risco sistêmico decorrente do caso é mínimo. Ele destaca que o sistema financeiro brasileiro permanece sólido, com bancos de grande porte bem capitalizados e um ambiente mais competitivo, impulsionado pela inovação tecnológica e pela presença de instituições de diferentes perfis. Nesse contexto, classifica o episódio como uma ocorrência pontual, sem potencial de contaminação ampla sobre o crédito ou a estabilidade financeira.

Em relação à atividade econômica, o ex-diretor do Banco Central projeta crescimento próximo de 1,8% em 2026. Embora considere esse ritmo moderado, ele não descarta surpresas positivas, sobretudo em função do calendário eleitoral e do impulso associado aos gastos públicos. Para Le Grazie, esses fatores podem sustentar a demanda ao longo do ano, mesmo em um cenário de política monetária ainda restritiva em termos históricos.

No mercado de câmbio, a expectativa é de continuidade de um dólar mais fraco, favorecendo ativos brasileiros. Ainda assim, o economista ressalta que o cenário externo segue como principal fonte de risco. Uma eventual mudança no ambiente político nos Estados Unidos poderia reverter o fluxo de capitais e pressionar moedas de países emergentes, incluindo o real.

Segundo Le Grazie, até o momento, o governo Trump produziu efeitos líquidos positivos para os mercados brasileiros, com uma saída relevante de capital dos Estados Unidos em direção a economias emergentes. Esse movimento, que se intensificou nos últimos meses, contribuiu para a valorização dos ativos domésticos de forma mais rápida do que o mercado previa.

O cenário fiscal também foi abordado na entrevista. Para o ex-diretor do Banco Central, a discussão sobre contas públicas tende a perder protagonismo ao longo de 2026, em razão do ambiente eleitoral. Ele avalia que o debate fiscal ficará em segundo plano até 2027, com discursos mais populistas dominando a agenda política. Ainda assim, considera inevitável que o próximo governo enfrente a necessidade de medidas estruturais para conter a trajetória de crescimento da dívida pública.

A entrevista também tratou do baixo apetite por ofertas iniciais de ações no mercado doméstico, da preferência de investidores estrangeiros por empresas consolidadas e bancos de grande porte, além das indicações recentes para os comandos do Federal Reserve e do Banco Central do Brasil, temas que, na visão de Le Grazie, seguirão influenciando o comportamento dos mercados ao longo dos próximos trimestres.

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