O presidente da B3, Gilson Finkelsztain, afirmou que o mercado brasileiro pode atravessar um período mais favorável para aberturas de capital nos próximos meses, com protagonismo do setor de infraestrutura e avanço mais consistente das companhias ligadas ao saneamento. A avaliação foi apresentada durante encontro com jornalistas realizado nesta quinta-feira, em São Paulo, no qual o executivo comentou as perspectivas para o mercado de capitais em 2026.
Segundo Finkelsztain, o ambiente mais construtivo está relacionado principalmente a uma mudança no fluxo global de investimentos, com maior disposição de investidores estrangeiros em realocar recursos para mercados emergentes. Ele destacou que esse movimento decorre muito mais de fatores externos do que de transformações estruturais internas no Brasil, embora tenha contribuído para uma reação recente do mercado de renda variável doméstico.
De acordo com o executivo, após um período prolongado em que os Estados Unidos concentraram grande parte do capital marginal disponível, especialmente em setores ligados à tecnologia, começa a surgir um movimento de diversificação geográfica. Esse processo, ainda em estágio inicial, tem favorecido alguns mercados emergentes, incluindo o brasileiro, ainda que de forma parcial. Para Finkelsztain, essa inflexão pode representar a reversão de uma tendência observada ao longo de quase cinco anos.
Apesar do cenário externo mais benigno, o CEO da B3 ponderou que o nível elevado da taxa de juros no Brasil continua sendo um fator limitante para a renda variável. Mesmo com expectativas de redução gradual, o patamar atual ainda impõe desafios para decisões de investimento em ações e para a retomada mais ampla do mercado de capitais.
Finkelsztain afirmou que aproximadamente 50 empresas já se encontram aprovadas para processos de abertura de capital. Segundo ele, são companhias que atravessaram os últimos anos focadas no fortalecimento de estruturas de governança, ajustes operacionais e ampliação de investimentos, e que agora buscam acessar o mercado para financiar planos de expansão considerados relevantes.
A expectativa, de acordo com o executivo, é que a reabertura da janela de IPOs seja liderada por empresas de infraestrutura, caracterizadas por maior maturidade operacional e projetos com horizonte de investimento mais definido. Dentro desse segmento, o saneamento aparece como o setor mais adiantado, seguido pela logística. Ainda assim, Finkelsztain ressaltou que há companhias de diferentes áreas prontas para acessar o mercado, dependendo das condições.
O presidente da B3 também mencionou o impacto do calendário político sobre as decisões dos investidores, lembrando que 2026 será um ano eleitoral no Brasil. Ele apontou que as incertezas em torno da agenda fiscal e das diretrizes econômicas tendem a influenciar a precificação dos ativos, mas que, a partir dos próximos meses, a maior clareza sobre candidaturas e propostas pode contribuir para uma melhor calibração das expectativas do mercado.
Ao tratar do investidor doméstico, Finkelsztain destacou a redução da participação da pessoa física na renda variável ao longo dos últimos anos. Segundo ele, esse percentual já chegou a se aproximar de 15% do total de recursos investidos, mas atualmente está em torno de 5% a 6%. Embora considere esse nível baixo, o executivo afirmou que houve avanços relevantes em educação financeira, o que pode amplificar o impacto de um eventual ciclo de queda dos juros sobre o mercado acionário.








