As ações do Méliuz acumulam queda superior a 8% desde o início de 2026, refletindo a desvalorização do bitcoin, ativo que passou a integrar de forma central a estratégia financeira da companhia. No mesmo período, a criptomoeda registra recuo aproximado de 19%, em um ambiente marcado por maior aversão global ao risco e retirada de recursos de fundos de investimento.
Na última quinta-feira, o bitcoin atingiu o patamar de US$ 63.295,74, equivalente a cerca de R$ 333 mil, o menor nível desde outubro de 2024. O movimento ocorreu em meio à intensificação da saída de capital de produtos financeiros ligados a criptoativos. Na sexta-feira seguinte, porém, o ativo digital apresentou recuperação parcial de cerca de 11%, o que contribuiu para uma alta de 4,45% das ações do Méliuz no pregão.
Procurada, a companhia afirmou que não pretende alterar sua estratégia de investimento em bitcoin. Segundo o diretor de Relações com Investidores, Márcio Penna, a decisão de manter exposição ao criptoativo foi tomada de forma colegiada e segue válida mesmo em períodos de maior volatilidade. De acordo com ele, a oscilação negativa atual reflete o mesmo mecanismo observado em momentos de forte valorização do ativo.
O Méliuz se apresenta ao mercado como uma “Bitcoin Treasury Company”. De acordo com a empresa, sua estratégia consiste em maximizar, ao longo do tempo, a quantidade de bitcoins por ação. Para isso, utiliza tanto a geração de caixa operacional quanto a emissão de ações para levantar recursos e direcioná-los à aquisição da criptomoeda.
A adoção dessa estratégia teve início em março de 2025, quando a companhia anunciou, por meio de fato relevante, a criação de uma política de tesouraria voltada à aplicação de recursos em bitcoin. Na ocasião, o Méliuz informou a compra de 45,72 unidades da criptomoeda, ao custo aproximado de US$ 4,1 milhões.
Desde então, o volume de ativos digitais na tesouraria cresceu de forma expressiva. No balanço do terceiro trimestre de 2025, o mais recente divulgado pela empresa, o Méliuz informou deter 604,7 bitcoins, o que representa aumento de 1.222% em relação ao primeiro trimestre do mesmo ano.
Para parte do mercado, a estratégia faz com que as ações da companhia passem a se comportar de forma semelhante ao próprio criptoativo. Segundo Vinícius Bazan, muitos investidores enxergam os papéis como uma forma indireta e alavancada de exposição ao bitcoin. Nesse contexto, movimentos de queda da criptomoeda tendem a se refletir de maneira amplificada nas ações, enquanto períodos de valorização produzem o efeito oposto.
Essa correlação ficou evidente em outubro de 2025, quando o bitcoin atingiu a máxima de US$ 126,31 mil. Naquele momento, as ações do Méliuz subiram 9,3%, segundo dados da plataforma Investing. Desde então, a criptomoeda acumula desvalorização de cerca de 35%, movimento que contribuiu para uma queda de 21,25% nos papéis da empresa.
Analistas destacam que a decisão de manter parte relevante do caixa em criptoativos envolve riscos adicionais. Para Marcos Praça, em momentos de alta, a estratégia pode atrair investidores e ampliar a visibilidade da empresa, mas, em ciclos de correção, tende a gerar impactos negativos, inclusive para acionistas que não acompanham de perto o nível de exposição da companhia ao ativo digital.
O movimento recente de queda ocorre em um cenário mais amplo de aversão ao risco nos mercados internacionais. Analistas do Deutsche Bank apontam que os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram retiradas superiores a US$ 3 bilhões em janeiro, após saídas de aproximadamente US$ 2 bilhões em dezembro e US$ 7 bilhões em novembro. Para o banco, esse fluxo indica perda de apetite de investidores tradicionais por criptoativos.
O Deutsche Bank também cita fatores de política monetária como elemento adicional de pressão. A indicação de Kevin Warsh pelo presidente Donald Trump para o comando do Federal Reserve é vista pelo mercado como um sinal de possível endurecimento da política monetária. Warsh é associado a uma postura mais restritiva no combate à inflação, o que tende a favorecer ativos considerados mais seguros, como títulos públicos americanos, e a reduzir a atratividade de investimentos de maior risco, incluindo as criptomoedas.








