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Servidores do BC recebiam mesada de Vorcaro e orientavam banqueiro sobre supervisão do Master

Investigação aponta que ex-dirigentes do BC participavam de grupo de WhatsApp com Vorcaro para burlar supervisão

A terceira fase da Operação Compliance Zero revelou que o Banco Central enfrentava, no caso do Banco Master, uma organização criminosa que havia infiltrado dois de seus próprios dirigentes. O ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária Belline Santana são suspeitos de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa. Segundo as investigações da Polícia Federal, ambos recebiam pagamentos regulares de Daniel Vorcaro, formalizados como prestação de serviços de consultoria, e atuavam para favorecer o banqueiro dentro da autoridade monetária.

As apurações indicam que Paulo Sérgio orientava Vorcaro sobre como se comportar em reuniões com o Banco Central, revisava documentos do Master antes que fossem submetidos à análise do próprio órgão e repassava ao banqueiro informações sobre movimentações financeiras detectadas pela supervisão, permitindo que operações fossem ajustadas antes de qualquer intervenção regulatória. Tanto Paulo Sérgio quanto Belline participavam de um grupo de WhatsApp com Vorcaro para discutir estratégias e trocar documentos, segundo a PF. As investigações apontam ainda que uma viagem de Paulo Sérgio à Disney com a família teria sido custeada pelo banqueiro.

O peso institucional dos dois servidores é significativo. Paulo Sérgio foi indicado ao cargo de diretor pelo ex-presidente Michel Temer, passou por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e participava das reuniões do Comitê de Política Monetária. Entre 2017 e 2023, seu voto integrava o processo de definição da taxa básica de juros. Ambos acumulam décadas de carreira dentro do Banco Central.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, já demonstrava desconfiança em relação aos balanços do Master antes da abertura formal das investigações. Com trajetória em banco de porte semelhante ao do Master, Galípolo estranhava os números defendidos por Paulo Sérgio e chegou a ter discussões com o então diretor sobre a instituição, segundo pessoas próximas à autarquia. Foi a partir dessa postura que Galípolo determinou a abertura da sindicância interna que resultou no afastamento dos dois servidores em janeiro deste ano.

As informações levantadas internamente pelo BC foram repassadas à Polícia Federal e serviram de base para que o ministro André Mendonça, do STF, autorizasse as prisões de Vorcaro e de seu cunhado Fabiano Zettel, além das demais medidas cautelares que atingiram os ex-dirigentes. A substituição do ministro Dias Toffoli por Mendonça na relatoria do caso é apontada por interlocutores do setor como um fator determinante para o andamento das investigações, com a avaliação de que o curso das apurações dificilmente seria o mesmo sob o relator anterior.

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