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Mercado prevê ciclo de cortes graduais de 0,25 ponto após Copom reduzir Selic para 14,75%

O Copom cita explicitamente o conflito no Oriente Médio e abre espaço para mudança de ritmo se o cenário melhorar

O corte de 0,25 ponto percentual na Selic decidido pelo Copom nesta quarta-feira, 18, gerou uma leitura uniforme entre os economistas do mercado financeiro: esse será o ritmo do ciclo de redução dos juros enquanto a guerra no Oriente Médio mantiver o petróleo em patamares elevados e a inflação futura sob pressão.

A possibilidade de cortes mais agressivos de 0,50 ponto por reunião, que era o consenso antes dos ataques dos Estados Unidos ao Irã, foi colocada em segundo plano pelo próprio comunicado do Banco Central, que abriu a reunião citando o conflito como variável determinante para a condução da política monetária.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, destacou que a decisão foi moderada diante de um mercado que ainda mantinha parcela significativa das apostas num corte de 0,50 ponto. Para ele, o fato de o Copom ter iniciado o comunicado mencionando o conflito no Oriente Médio é um sinal de transparência que ajuda a calibrar as expectativas.

“Quanto mais transparente for o Banco Central, melhor ele vai conseguir conduzir as expectativas”, disse. No contexto atual, a taxa de juros real brasileira, considerando a curva de juros futuros, está em cerca de 9,51% ao ano, a segunda mais alta do mundo.

Caio Megale, economista-chefe da XP, avaliou que o comunicado do Copom manteve a projeção de inflação em patamar semelhante ao anterior, mas registrou referência explícita aos eventos recentes e abriu a possibilidade de que a evolução do cenário crie condições para mudança no ritmo dos cortes. Na sua leitura, o ciclo seguirá com reduções de 0,25 ponto ou mais a cada reunião, mas a aceleração depende da trajetória do petróleo e da inflação.

Marcelo Fonseca, do grupo CVPAR, chamou atenção para uma mudança relevante nas projeções internas do Copom: a expectativa de inflação para o terceiro trimestre de 2027 avançou de 3,4% para 3,9%, sinal de que o choque do petróleo já contaminou as estimativas do próprio Banco Central para o horizonte relevante da política monetária. Para o próximo encontro, em abril, Fonseca e Agostini convergem para nova redução de 0,25 ponto.

Danilo Passos, da WHG, reforçou a leitura de que o texto do comunicado deixa claro que dificilmente o ritmo de corte será acelerado no curto prazo. E Rafael Cardoso, do Daycoval, foi mais direto ao condicionar qualquer aceleração à queda do petróleo. “Se tiver uma melhora do cenário, se o preço do petróleo voltar a cair para patamares anteriores ao conflito, eventualmente o Banco Central pode vir com corte de 0,50”, disse. Enquanto o barril permanecer elevado, o ritmo de 0,25 ponto deve prevalecer.

No setor produtivo, a reação foi de insatisfação. A Fiesp classificou o corte como insuficiente e afirmou que não há excesso de demanda que justifique a manutenção de juros tão elevados. “O que se observa é uma punição ao investimento e à inovação em favor da inércia da renda fixa”, declarou a federação, que aproveitou a ocasião para renovar o pedido de corte de gastos pelo governo. A Fiemg seguiu a mesma linha, afirmando que a queda de 15% para 14,75% não é suficiente para melhorar a competitividade da indústria e que o anúncio não atendeu às expectativas do setor produtivo após quase dois anos sem reduções na taxa básica.

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