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Squadra acusa Hapvida de uma das maiores destruições de valor do mercado brasileiro

A gestora que revelou a fraude do IRB em 2020 defende voto múltiplo na assembleia de 30 de abril e indica três conselheiros

A Squadra Investimentos publicou uma carta ao alto escalão da Hapvida que vai muito além de uma crítica de acionista insatisfeito. O documento, endereçado ao presidente do conselho, ao CEO Jorge Fontoura Pinheiro Koren de Lima e ao diretor de relações com investidores, acumula uma sequência de acusações sobre governança, execução estratégica e destruição de valor que coloca a administração da companhia em posição defensiva às vésperas da assembleia do dia 30 de abril.

A Squadra, uma das maiores gestoras do país e responsável por revelar a fraude contábil do IRB em 2020, afirma deter 6,98% do capital votante da Hapvida e abre a carta com uma afirmação contundente: a empresa protagonizou uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro. Os números sustentam o argumento. Desde o IPO em 2018, as ações HAPV3 acumulam queda de aproximadamente 85%, enquanto o Ibovespa avança cerca de 120% no mesmo período.

A fusão com a NotreDame Intermédica, ocorrida há quatro anos, é tratada como o principal capítulo da deterioração. A integração foi mal executada, segundo a Squadra, com perda de valor estimada em R$ 80 bilhões. As aquisições realizadas ao longo do caminho também são criticadas por terem diluído a exposição ao negócio original e aumentado a complexidade operacional sem entregar retorno proporcional.

Os dados financeiros mais recentes reforçam a narrativa. No quarto trimestre de 2025, o lucro líquido ajustado da Hapvida foi de R$ 180,6 milhões, queda de 64,9% em relação ao mesmo período de 2024. No consolidado do ano, o resultado somou R$ 1,23 bilhão, recuo de 32,3%. O endividamento cresceu a ponto de as debêntures da companhia serem negociadas no mercado secundário a taxas superiores a CDI mais 9% ao ano. Mesmo assim, a empresa usou R$ 384 milhões de caixa para recomprar ações próprias, decisão que a Squadra classifica como incompatível com o nível de alavancagem.

A perda de beneficiários é outro ponto de ataque. A Hapvida informa redução de 238 mil clientes nas regiões Sudeste e Sul em 2025. Os dados da Agência Nacional de Saúde para os mesmos estados mostram crescimento de 792 mil beneficiários no período, já incluindo as perdas da Hapvida. A diferença entre os dois números revela não apenas retração, mas perda competitiva expressiva num mercado em expansão.

As críticas à governança são igualmente duras. A Squadra aponta reapresentação de demonstrações financeiras, reconhecimento atrasado de passivos regulatórios e uma estrutura de remuneração que considera problemática. O CEO recebeu cerca de R$ 110 milhões em 2023 e 2024, o que lhe rendeu menções como um dos mais bem pagos do Brasil. O conselho de administração recebeu 94% do bônus previsto no mesmo período, apesar de toda a destruição de valor, num modelo em que a remuneração variável do colegiado está atrelada às mesmas métricas da diretoria executiva, o que a gestora considera um conflito de interesse estrutural.

Para além das críticas, a carta apresenta uma tese: a Hapvida deveria avaliar desinvestimentos nas operações do Sudeste e Sul, reduzir a alavancagem e focar nos ativos mais rentáveis. A gestora também defende a adoção do voto múltiplo na eleição do conselho e indicou três candidatos: Tania Sztamfater Chocolat, Bruno Magalhães e Silva e Eduardo Parente Menezes, todos com experiência em reestruturação, governança e gestão de empresas complexas. A Hapvida informou que recebeu a carta e que o conselho a analisa com atenção.

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