Por Letícia Bogéa – Analista de Economia do Boletim Nacional
O otimismo da Bolsa brasileira neste mês reflete, entre outros fatores, a expectativa de alternância no poder e de um eventual novo governo que poderá adotar uma política econômica mais comprometida com o ajuste das contas públicas. Enquanto investidores apostam na possibilidade de redução do risco fiscal sob um novo governo, a gestão Lula amplia benefícios e incentivos às vésperas das eleições, em uma estratégia que – claramente – busca conquistar votos.
O contraste acende um alerta: o ganho político pode ser imediato, mas os custos financeiros podem permanecer por anos no bolso do contribuinte. E a conta pesará ainda mais no bolso da população de menor renda, justamente aquela que o governo afirma priorizar em suas políticas.
Segundo levantamento do Estadão, o Gastômetro contabiliza R$ 354 bilhões em gastos, subsídios, renúncias fiscais e benefícios no terceiro mandato de Lula. Entre as medidas está o pacote para microempreendedores individuais (MEIs), com previsão de perdão de R$ 12,86 bilhões em dívidas tributárias e promessa de um Pix de até R$ 5 mil. São iniciativas com impactos fiscais distintos, mas que exigem respostas sobre como serão financiadas.
Anunciar benefícios sem esclarecer como serão financiados expõe a falta de planejamento fiscal e levanta uma questão: compromisso com a população ou estratégia eleitoral? Afinal, a conta não desaparece. Recai sobre o contribuinte, seja por mais impostos, pressão sobre juros e inflação ou menos recursos para serviços públicos.
A expectativa de mudança na condução econômica ajuda a explicar o otimismo da Bolsa. Um governo que consiga controlar despesas, estabilizar a dívida pública e recuperar a credibilidade fiscal poderá reduzir a pressão sobre os juros, estimular investimentos, gerar empregos e facilitar o acesso ao crédito. Os benefícios de uma economia equilibrada não ficam restritos aos investidores: chegam às empresas, ao consumo e ao bolso das famílias.
A alternância política, por si só, não garante esses resultados, mas alimenta expectativas de mudança na condução econômica, diante das preocupações com o déficit fiscal e o crescimento da dívida pública no atual governo.
O problema não está em conceder benefícios, mas em ampliar compromissos financeiros sem demonstrar sua sustentabilidade. Quando as contas públicas se deterioram, o custo aparece no crédito mais caro, na pressão tributária e na redução da capacidade de investimento do Estado.
A Bolsa pode antecipar um cenário econômico melhor, mas o contribuinte continua exposto às consequências das decisões atuais. O mercado aposta no ajuste fiscal de amanhã, enquanto o brasileiro corre o risco de pagar a conta eleitoral de hoje.









