A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais poderá aumentar as despesas operacionais de hospitais e laboratórios brasileiros, com possíveis reflexos sobre a rentabilidade de companhias listadas na Bolsa. A avaliação é da XP Investimentos, que identifica maior exposição entre os prestadores de serviços de saúde devido à necessidade de manter equipes de atendimento em funcionamento contínuo.
Empresas como Rede D’Or e Fleury estão entre as que podem enfrentar custos adicionais caso a mudança nas regras trabalhistas exija novas contratações ou alterações nas escalas de profissionais de enfermagem. O impacto dependerá da regulamentação definitiva e da possibilidade de reorganizar as jornadas sem comprometer a capacidade de atendimento.
A análise da XP diferencia os efeitos entre os segmentos do setor. Hospitais e laboratórios apresentam maior exposição direta ao aumento das despesas com pessoal, enquanto operadoras de planos de saúde podem sofrer consequências indiretas por meio de reajustes cobrados pelos prestadores. Na indústria farmacêutica, a tendência é de efeitos mais limitados.
Uma estimativa preliminar elaborada pelo BTG Pactual em fevereiro indicou que a redução da jornada semanal poderia exigir aproximadamente 10% mais funcionários nas empresas analisadas, caso fosse necessário preservar o mesmo volume total de horas trabalhadas e não houvesse redução salarial.
Nesse cenário, o banco projetou uma possível diminuição percentual de um dígito baixo a médio no Ebitda de Rede D’Or, Hapvida, Fleury, Dasa e Mater Dei. O indicador representa o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização e é utilizado para acompanhar a capacidade de geração de resultados das empresas.
O BTG ressaltou, entretanto, que a simulação envolve incertezas relevantes, especialmente em relação à quantidade de trabalhadores efetivamente submetidos à escala 6×1 e à distribuição dos funcionários entre atividades administrativas e operacionais.
Nos laboratórios de diagnóstico, a preocupação está concentrada nas equipes de enfermagem contratadas para jornadas de até 44 horas semanais. Segundo a XP, as despesas com pessoal representam entre 20% e 30% da receita dessas empresas, tornando eventuais aumentos de custos relevantes para suas margens operacionais.
A necessidade de preservar horários de coleta, exames e demais serviços poderá levar à ampliação dos quadros de funcionários. Parte dessas despesas, contudo, poderá ser compensada por mudanças no funcionamento das unidades e por uma distribuição mais eficiente das equipes ao longo da semana.
Nos hospitais, a análise envolve também os profissionais submetidos ao regime de trabalho 12×36, no qual são cumpridas 12 horas consecutivas de atividade, seguidas por 36 horas de descanso.
Como essa modalidade pode resultar em quantidades diferentes de horas trabalhadas de uma semana para outra, uma interpretação mais restritiva do novo limite semanal poderia exigir adaptações nas escalas e aumentar a complexidade da gestão de pessoal.
A XP observa que a possibilidade de contabilizar a jornada em períodos mais extensos, como ciclos mensais, reduziria a necessidade de mudanças operacionais. Por isso, a definição das regras de apuração das horas será determinante para avaliar o impacto financeiro sobre os hospitais.
A contratação de médicos também diferencia a estrutura de custos do setor. Como parte expressiva desses profissionais presta serviços por meio de pessoas jurídicas, a exposição direta dessa categoria às regras aplicáveis aos empregados contratados pelo regime trabalhista é menor.
Para as operadoras de planos de saúde, o principal risco está na possibilidade de hospitais e laboratórios transferirem parte dos custos adicionais aos valores cobrados pelos atendimentos e procedimentos.
Embora essas empresas tenham exposição direta mais limitada à redução da jornada, reajustes nos contratos com prestadores poderiam elevar suas despesas assistenciais e pressionar os resultados operacionais.
Outro ponto observado pela XP é o funcionamento das centrais de atendimento. Parte dos call centers utiliza a escala 6×1, o que pode exigir reorganização das equipes. Nesse segmento, investimentos em automação e inteligência artificial aparecem como alternativas para reduzir a necessidade de mão de obra e conter despesas ao longo do tempo.
A indústria farmacêutica, por sua vez, apresenta menor vulnerabilidade relativa. A exposição está concentrada principalmente nos funcionários das unidades industriais que cumprem jornadas de até 44 horas semanais.
De acordo com a XP, a mão de obra fabril representa menos de 10% dos custos totais das farmacêuticas. Essa participação reduz o peso de eventuais aumentos de despesas e amplia as possibilidades de compensação por meio de ganhos de produtividade, reorganização das atividades e eficiência operacional.
As estimativas indicam que os efeitos da mudança trabalhista serão diferentes conforme a estrutura de custos e o modelo de funcionamento de cada empresa. Hospitais e laboratórios, que dependem de equipes presenciais para manter o atendimento, tendem a enfrentar desafios maiores do que segmentos com menor participação da mão de obra nas despesas.










