O estudo da consultoria BMJ aponta que, caso as negociações com os Estados Unidos avancem nos próximos meses, o Brasil pode recuperar até US$ 1,6 bilhão por ano em exportações. O cenário, porém, também contempla risco significativo: a ausência de acordo pode consolidar perdas que variam entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões anuais, segundo estimativas apresentadas pela empresa. A análise reforça que a indústria é o segmento mais vulnerável ao tarifaço imposto pelos americanos, dado seu peso e maior exposição às alíquotas adicionais.
A competitividade brasileira tem sido afetada de forma consistente. O levantamento indica que o país enfrenta desvantagem de até 30 pontos percentuais em manufaturados quando comparado a parceiros que contam com tarifas menores ou isenções no mercado americano, como União Europeia, Reino Unido e Argentina. Esse desequilíbrio já tem se refletido na substituição de fornecedores, especialmente no setor de máquinas e equipamentos, que registrou perda mensal estimada em US$ 25,39 milhões. Países como Alemanha, Canadá e a própria Argentina ampliaram presença em produtos como carregadoras e bulldozers.
O tarifário imposto pelos Estados Unidos também afeta segmentos estratégicos como madeira e derivados, aço, semimanufaturados e bens de capital. No caso da madeira, a pressão é dupla, já que o setor enfrenta a tarifa adicional de 40% e a possibilidade de novas alíquotas relacionadas a investigações sobre desmatamento. Para o aço e produtos semimanufaturados, as perdas mensais estão próximas de US$ 28 milhões, e atingem empresas que respondem por parte expressiva das exportações brasileiras aos Estados Unidos.
A categoria de produtos industrializados diversos é a mais prejudicada pelo tarifaço, somando quase US$ 70 milhões por mês em perdas e representando 27,3% do impacto total estimado. Nela estão concentrados itens como ferroligas de manganês, pneus e ferro fundido, produtos relevantes para a pauta de exportações brasileiras de maior valor agregado. O estudo destaca que a permanência desses itens sob regime tarifário agravado amplia o risco de deterioração estrutural das vendas brasileiras no mercado americano.
Os dados mostram que, embora o governo americano tenha ampliado recentemente as exceções, beneficiando itens como café não torrado, carnes bovinas, petróleo bruto, frutas e minério de ferro, a medida trouxe apenas alívio parcial. Esses produtos representavam 26% do valor antes submetido à tarifa adicional de 40%. No entanto, 74% das exportações brasileiras aos Estados Unidos seguem sob tarifação elevada, mantendo a pressão sobre setores industriais.
O impacto acumulado nos últimos meses confirma a tendência. Entre agosto e outubro de 2025, período no qual as tarifas mais severas estavam em vigor, o prejuízo consolidado alcançou US$ 767,85 milhões. Na comparação mensal, as perdas atuais somam US$ 255,95 milhões, cifra superior aos US$ 174,88 milhões observados exclusivamente sob o efeito da tarifa de 40%. Esse aumento decorre da combinação de mecanismos tarifários já aplicados e do risco de novas alíquotas relacionadas às investigações conduzidas pela Seção 301, que envolvem temas como propriedade intelectual, sistemas de pagamento como o Pix e desmatamento.
O estudo da BMJ, liderado por Welber Barral, José Pimenta e Josemar Pessoa, analisa tanto o regime tarifário em vigor quanto possíveis acréscimos que podem surgir das discussões em curso. Para Barral, o impacto sobre as exportações industriais supera expectativas iniciais e tende a ampliar o déficit comercial brasileiro com os Estados Unidos. A análise indica que, apenas no setor industrial, as perdas já respondem por mais de um quarto do total estimado.
Ao somar todas as tarifas e riscos mapeados, o levantamento estima que o Brasil pode perder mais de US$ 3 bilhões em exportações por ano. A cifra engloba prejuízos provocados pela tarifa adicional de 40% aplicada a aço, alumínio, cobre e madeira, além de potenciais tarifas futuras decorrentes de investigações ainda em andamento. O estudo conclui que as barreiras impostas pelos Estados Unidos afetam de maneira mais intensa os setores de maior valor agregado, reforçando o desafio para a indústria.









