O mercado de trabalho dos Estados Unidos deu um sinal mais forte de desaceleração em julho, aumentando as dúvidas sobre a necessidade de o Federal Reserve promover uma nova alta de juros na reunião de setembro. O relatório de emprego mostrou destruição líquida de 23 mil postos de trabalho no mês, resultado muito abaixo da expectativa de criação de 85 mil vagas.
A leitura negativa foi reforçada pela revisão do dado de junho. O número inicialmente divulgado, de criação de 57 mil empregos, foi reduzido para apenas 20 mil vagas, indicando que a perda de ritmo da atividade no mercado de trabalho já vinha ocorrendo antes do resultado de julho.
Segundo Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, os indicadores relacionados à remuneração dos trabalhadores também ficaram abaixo das projeções. O comportamento dos salários é acompanhado de perto pelo Federal Reserve por sua influência sobre a inflação de serviços e sobre a trajetória dos preços na economia americana.
“O Payroll surpreendeu negativamente o mercado ao registrar a destruição de 23 mil postos de trabalho em julho, enquanto a expectativa era de criação de 85 mil vagas. Além da forte decepção no dado do mês, o relatório também trouxe uma revisão para baixo do resultado de junho, que passou de 57 mil para apenas 20 mil empregos”, afirmou.
A combinação entre menor criação de empregos e desaceleração dos salários reforçou a percepção de que o mercado de trabalho americano pode estar perdendo força em velocidade superior à projetada pelos investidores.
O resultado teve impacto imediato sobre as expectativas para a política monetária dos Estados Unidos. Segundo a analista, a probabilidade implícita de uma nova alta dos juros na reunião de setembro caiu de 56,7% para 44% após a divulgação dos dados.
Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano também recuaram, refletindo a revisão das expectativas para o caminho dos juros. Quando o mercado passa a enxergar menor necessidade de aperto monetário, as taxas exigidas pelos investidores nos Treasuries tendem a cair, com efeitos sobre diferentes classes de ativos ao redor do mundo.
Para economias emergentes, a possibilidade de uma política monetária menos restritiva nos Estados Unidos também pode alterar o fluxo internacional de capitais. Juros americanos mais baixos ou estáveis reduzem, em determinadas condições, a atratividade relativa dos títulos dos EUA e podem favorecer ativos de maior risco, incluindo mercados como o brasileiro.
A leitura do Payroll, porém, não define isoladamente a decisão do Federal Reserve. Até a reunião de setembro, o banco central americano ainda avaliará novos dados de inflação, atividade econômica, consumo e mercado de trabalho antes de decidir se mantém ou modifica a atual trajetória dos juros.
Na avaliação de Sara Paixão, os números de julho reduzem a pressão por um novo aperto monetário. “Os dados reforçam a percepção de que o mercado de trabalho americano pode estar desacelerando em um ritmo mais intenso do que o esperado, o que coloca em dúvida a necessidade de um novo aumento de juros pelo Federal Reserve na reunião de setembro”, afirmou.










