O mercado de capitais brasileiro registra uma participação crescente de crianças e adolescentes. Dados divulgados pela B3 mostram que investidores com até 17 anos já acumulam aproximadamente R$ 3,5 bilhões em aplicações de renda variável, distribuídas entre ações, fundos imobiliários, fundos de índice e outros ativos negociados na Bolsa brasileira.
O levantamento aponta a existência de 60,8 mil investidores menores de idade com aplicações nessa modalidade. O número representa um crescimento de 58% em relação a dezembro de 2022, quando aproximadamente 38,4 mil crianças e adolescentes possuíam investimentos registrados na B3.
Divulgados durante as comemorações do Dia das Crianças, os dados mostram uma ampliação da presença de jovens no mercado financeiro e indicam que o planejamento de investimentos para filhos passou a integrar as decisões financeiras de um número maior de famílias.
Embora os recursos estejam registrados em nome de menores de idade, a realização de investimentos nessa faixa etária depende da participação dos responsáveis legais, conforme as regras aplicáveis à abertura e à movimentação das contas.
A evolução da base de investidores também revela mudanças na distribuição por gênero, com crescimento proporcionalmente maior da participação feminina.
Entre dezembro de 2022 e 2026, o número de meninas com investimentos em renda variável aumentou aproximadamente 72%, passando de 14,3 mil para 24,5 mil.
No mesmo intervalo, a quantidade de meninos investidores avançou 50%, de 24,1 mil para 36,3 mil.
Com essa evolução, as meninas passaram a representar cerca de 40% dos investidores com até 17 anos cadastrados na B3, enquanto os meninos correspondem aos outros 60%.
A diferença entre os ritmos de crescimento indica uma ampliação da participação feminina no mercado de capitais desde a infância e a adolescência, embora os meninos ainda constituam a maioria dos investidores dessa faixa etária.
Para Christianne Bariquelli, superintendente de Negócios para Pessoa Física da B3, o movimento está associado à incorporação do planejamento financeiro de longo prazo à rotina das famílias.
“O dado mostra que investir deixou de ser uma conversa restrita aos adultos. Cada vez mais famílias estão incluindo filhos e filhas no planejamento financeiro de longo prazo, muitas vezes antes mesmo da adolescência”, afirma.
A presença de crianças e adolescentes na Bolsa envolve diferentes objetivos financeiros, que podem incluir a formação de patrimônio para a vida adulta e a preparação de recursos destinados a despesas futuras.
O investimento desde cedo também amplia o período disponível para a acumulação de patrimônio, embora os resultados dependam dos ativos escolhidos, das condições de mercado e da regularidade dos aportes.
No levantamento da B3, as ações aparecem como o produto financeiro mais presente nas carteiras dos investidores menores de idade.
Quase 46 mil crianças e adolescentes possuem participação em empresas listadas na Bolsa, o que coloca essa categoria à frente das demais modalidades de renda variável.
Os fundos de investimento imobiliário (FIIs) ocupam a segunda posição, com aproximadamente 31,5 mil investidores de até 17 anos.
Esses fundos permitem a aplicação de recursos em carteiras ligadas ao mercado imobiliário, que podem incluir imóveis comerciais, galpões logísticos, shopping centers e títulos de crédito do setor, conforme a estratégia de cada fundo.
A presença dos FIIs entre os ativos escolhidos mostra que parte das famílias também utiliza instrumentos que oferecem exposição ao mercado imobiliário sem a necessidade de adquirir diretamente um imóvel.
Os fundos de índice, conhecidos como ETFs, também aparecem nas carteiras dos jovens investidores.
Esses produtos buscam acompanhar o desempenho de índices de referência e podem oferecer exposição a diferentes conjuntos de ações ou outros ativos por meio da negociação de cotas na Bolsa.
Outra modalidade identificada no levantamento é a de Brazilian Depositary Receipts (BDRs), certificados negociados no Brasil que representam ativos emitidos no exterior.
Os BDRs permitem que investidores brasileiros tenham exposição a empresas e outros instrumentos internacionais sem a necessidade de negociar diretamente nas bolsas estrangeiras.
Entre as ações presentes nas carteiras de crianças e adolescentes estão papéis de companhias conhecidas do mercado brasileiro, como Banco do Brasil, Itaú, Petrobras, Vale e WEG.
Essas empresas atuam em segmentos distintos da economia, incluindo serviços financeiros, petróleo e gás, mineração e indústria.
A presença de companhias de grande porte indica que esses ativos fazem parte das escolhas realizadas em nome dos jovens investidores, embora o levantamento não permita identificar, individualmente, os critérios utilizados pelas famílias na composição das carteiras.
Os números divulgados pela B3 também precisam ser interpretados considerando que uma mesma pessoa pode investir em diferentes categorias de produtos financeiros.
Assim, um adolescente que possua ações, fundos imobiliários e ETFs será contabilizado em cada uma dessas modalidades, mas representará apenas um CPF na base total de investidores.
Essa característica explica por que a soma dos participantes por tipo de investimento ultrapassa os 60,8 mil investidores menores de idade registrados pela Bolsa.
Apesar do crescimento observado, os dados não permitem concluir que a maior participação de crianças e adolescentes esteja necessariamente acompanhada de maior conhecimento sobre os riscos do mercado financeiro.
Investimentos em renda variável estão sujeitos a oscilações de preços e à possibilidade de perdas, inclusive quando envolvem empresas consolidadas ou produtos utilizados em estratégias de longo prazo.
Por essa razão, a formação de patrimônio para menores de idade exige atenção ao prazo dos objetivos financeiros, à diversificação e à capacidade de suportar variações no valor das aplicações.
O levantamento da B3 retrata, sobretudo, uma mudança na presença das famílias brasileiras no mercado de capitais.
Em menos de quatro anos, a base de investidores com até 17 anos aumentou de aproximadamente 38,4 mil para 60,8 mil pessoas, enquanto o patrimônio aplicado em renda variável por esse público alcançou R$ 3,5 bilhões.
O avanço mais acelerado entre as meninas e a predominância de ações e fundos imobiliários mostram como essa participação está distribuída e quais produtos concentram o maior número de jovens investidores.
Os resultados indicam que a formação de patrimônio por meio da Bolsa deixou de ser uma decisão exclusivamente associada à vida adulta e passou a integrar, de maneira crescente, o planejamento financeiro de famílias com filhos menores de idade.










