A Vale (VALE3) perdeu R$ 24,64 bilhões em valor de mercado desde o primeiro turno das eleições presidenciais, acumulando desvalorização de aproximadamente 8% em um período no qual o Ibovespa avançou cerca de 10%. O desempenho reflete uma combinação de pressões sobre os custos da mineradora, valorização do real e maior interesse de investidores por ações da Petrobras (PETR4).
A diferença também aparece no acumulado de outubro. Enquanto o principal índice da B3 registra alta de aproximadamente 6%, os papéis da Vale recuam 5%, o equivalente a uma redução de R$ 15,13 bilhões em sua capitalização de mercado. No mesmo período, a bolsa brasileira recebeu cerca de R$ 18,5 bilhões em investimentos estrangeiros.
Apesar de estar entre as empresas de maior peso do Ibovespa, a Vale não acompanhou o movimento positivo do mercado. Parte dos recursos internacionais ingressa na bolsa por meio de fundos negociados em bolsa (ETFs) que replicam o índice, favorecendo, em geral, companhias com maior participação em sua composição.
Um dos principais fatores de pressão sobre a mineradora é a valorização do petróleo. Com o Brent acima de US$ 100 por barril, aumentam as preocupações com os custos do transporte marítimo de minério de ferro, especialmente em razão do encarecimento do bunker, combustível utilizado pelos navios.
O impacto já havia sido mencionado por Rogério Nogueira, vice-presidente executivo de Desenvolvimento Comercial da Vale, durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre. A elevação do frete pode comprometer parte dos ganhos decorrentes do aumento do volume comercializado.
O Itaú BBA estima que a divisão de ferrosos da companhia registre Ebitda de US$ 2,66 bilhões no terceiro trimestre de 2026, queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. A projeção considera embarques de 82,7 milhões de toneladas, crescimento de 4%, mas aponta que os custos logísticos mais elevados devem superar os benefícios desse avanço.
A Vale divulgará seu balanço trimestral em 29 de outubro, quando o mercado poderá avaliar os efeitos do petróleo, do câmbio e dos preços do minério de ferro sobre os resultados.
A desvalorização do dólar representa outra fonte de pressão. Como parcela relevante das receitas da mineradora é denominada na moeda americana, sua queda reduz o valor convertido para reais, embora também possa afetar custos e outras contas financeiras.
Desde o primeiro turno, a cotação do dólar passou de aproximadamente R$ 5,20 para R$ 5,00. O movimento tem sido associado à expectativa de maior entrada de capital estrangeiro e à percepção de menor risco fiscal diante da possibilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao mesmo tempo, a alta do petróleo beneficia as perspectivas de geração de receitas da Petrobras, contribuindo para uma mudança na preferência de parte dos investidores. A estatal chegou a se aproximar de R$ 800 bilhões em valor de mercado, enquanto a Vale acumulava perdas.
Segundo Rodrigo Glatt, sócio-fundador da GTI Administração de Recursos, parte dos investidores mantém posições compradas em Petrobras e vendidas em Vale. Essa estratégia busca capturar a diferença de desempenho entre as duas companhias, apostando na valorização da petroleira e na queda das ações da mineradora.
Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, também identifica a possibilidade de investidores utilizarem os papéis da Vale como fonte de recursos para ampliar a exposição a empresas consideradas mais sensíveis a uma eventual melhora das perspectivas fiscais brasileiras.
Nesse tipo de operação, investidores podem vender ações da mineradora a descoberto e direcionar os recursos para outros ativos, intensificando a pressão sobre VALE3 mesmo durante períodos de valorização generalizada da bolsa.
Para Hungria, a combinação de dólar mais fraco, frete marítimo mais caro e queda dos preços do minério de ferro tende a comprometer o desempenho operacional da Vale na comparação anual.
Com a divulgação do balanço marcada para 29 de outubro, as atenções estarão voltadas à capacidade da mineradora de compensar a pressão sobre margens com maiores volumes de embarque, em um ambiente no qual o fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira não tem sido suficiente para sustentar suas ações.










