Por Felipe Fernandes, engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro
Na semana passada, durante uma conversa com um grupo de empresários cearenses, surgiu uma expressão que me chamou a atenção.
Conversávamos sobre negócios, investimentos e os desafios de empreender quando um deles comentou:
“Prejuízo se tira do juízo.”
A expressão me fez pensar nas diferentes maneiras como reagimos a um prejuízo. Há quem procure imediatamente um culpado, transferindo para fornecedores, clientes ou sócios a frustração de uma decisão que não deu certo. Há também quem permita que a perda tome conta dos próprios pensamentos e passe a decidir movido pela raiva, pela pressa ou pelo desejo de recuperar o dinheiro a qualquer custo.
Em ambos os casos, o prejuízo deixa de ser apenas financeiro. Ele começa a comprometer nosso julgamento.
A conversa seguiu, mas aquela frase ficou comigo. Percebi que tirar o prejuízo do juízo não significa ignorar a perda ou deixar de apurar responsabilidades. Significa reconhecer o que aconteceu, aprender com a experiência e impedir que ela comprometa nossa capacidade de tomar as próximas decisões.
Existe uma situação que praticamente todo empresário já enfrentou: perceber que uma decisão não produziu o resultado esperado e, mesmo assim, sentir enorme dificuldade de abandoná-la.
Às vezes é um investimento que perdeu valor, uma obra cujo orçamento deixou de fazer sentido, um negócio que não prosperou ou uma sociedade que já não funciona.
O problema é que, quando o prejuízo aparece, nem sempre conseguimos enxergá-lo apenas como um número.
Junto vêm a frustração, a raiva, o orgulho ferido e aquela sensação de que precisamos fazer algo para recuperar o que perdemos.
E é aí que mora o perigo.
Imagine um empresário que investiu dois milhões em determinado projeto. Fez estudos, contratou profissionais, mobilizou sua equipe.
Em algum momento, percebe que as premissas mudaram. O mercado já não responde, os custos aumentaram, as perspectivas de retorno diminuíram.
Mas aparece uma frase em sua cabeça:
“Depois de tudo o que já investi, não posso desistir agora.”
Talvez possa. Talvez não deva.
A questão é que o dinheiro já investido não deveria ser o principal argumento para decidir o que fazer com o dinheiro que ainda resta.
O dinheiro já gasto não volta simplesmente porque decidimos continuar. Mas nem sempre conseguimos reconhecer essa armadilha.
O investidor que mantém uma ação apenas porque espera que ela volte ao preço pelo qual a comprou.
O empresário que financia uma operação deficitária porque não admite encerrar um projeto que idealizou.
O comerciante que insiste num produto sem mercado porque precisa provar que sua aposta estava certa.
Em todos esses casos, a pessoa deixa de perguntar qual é a melhor decisão agora e passa a perguntar como recuperar aquilo que perdeu.
O passado começa a comandar o futuro.
E prejuízo nenhum deveria ter esse poder.
Perder dinheiro dói, especialmente quando representa anos de trabalho e oportunidades sacrificadas. Mas o que não podemos permitir é que isso comprometa nossa capacidade de pensar.
Existe uma diferença entre recuperar um investimento e recuperar o orgulho.
O primeiro pode ser economicamente justificável. O segundo é uma armadilha.
Persistência e teimosia frequentemente se parecem. As duas exigem disposição de continuar quando as circunstâncias são difíceis. Mas a persistência se sustenta em razões que continuam válidas, enquanto a teimosia se sustenta em razões que deixaram de existir.
Um projeto pode enfrentar problemas e ainda ser excelente. Nem toda dificuldade recomenda retirada. Mas uma boa decisão tomada ontem pode deixar de ser boa amanhã, sem que isso torne quem a tomou incompetente.
A pergunta útil é simples:
Se eu estivesse conhecendo esse negócio hoje, com todas as informações que tenho agora, ainda escolheria investir?
Não é quanto já foi gasto. É se aquela continua sendo a melhor destinação para seus recursos, tempo e energia.
Isso não significa ignorar responsabilidades. Contratos, pessoas e obrigações precisam ser respeitados. Mas cumprir responsabilidades é diferente de continuar cometendo o mesmo erro.
Existe outro risco que poucos reconhecem.
Depois de uma perda, muitas pessoas desenvolvem pressa de recuperar o dinheiro. O investidor aumenta o risco da próxima operação. O empresário aceita um negócio que normalmente recusaria. O objetivo já não é construir um bom resultado.
É apagar a sensação da perda.
E essa urgência é mais perigosa que o prejuízo original, porque não oferece tempo para pensar. A pessoa ferida quer agir rápido, quer compensar. Nesse estado, decisões ruins multiplicam a perda inicial.
Quem perdeu dinheiro não precisa necessariamente de uma oportunidade maior. Precisa, antes de tudo, recuperar a tranquilidade para avaliar a próxima com clareza.
Isso exige disciplina. Separar fatos das emoções. Ouvir opiniões diferentes. Admitir que nem sempre há respostas confortáveis.
Não temos como voltar a uma decisão equivocada. Mas podemos preservar nossa capacidade de avaliar, escolher e decidir bem.
O prejuízo já aconteceu. A próxima decisão ainda não.
E talvez a maturidade de um empresário não esteja em nunca perder dinheiro, mas em não permitir que uma perda comprometa sua capacidade de decidir.
Porque prejuízo se tira do juízo.









