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Kinea vê melhor relação risco-retorno nos juros nominais que nos reais

Análise da Kinea destaca limites para NTN-Bs e aposta em queda dos juros nominais

O avanço do Ibovespa para patamares históricos e a valorização do real no início do ano contrastam com o comportamento do mercado de juros, que, segundo avaliação da Kinea Investimentos, apresenta atualmente uma relação menos favorável entre risco e retorno. Na leitura da gestora, a melhora observada em outros ativos domésticos não se refletiu de forma relevante na curva de juros reais, que permanece pressionada mesmo em um ambiente de maior apetite por risco.

A análise é de Guilherme Rodrigues, gestor de renda fixa que passou a integrar recentemente a equipe da Kinea. Ele avalia que, embora os níveis atuais dos juros reais sejam elevados, o início de um ciclo de afrouxamento monetário tende a beneficiar primeiro os juros nominais, adiando um movimento mais consistente de valorização das taxas reais. Nesse contexto, a gestora mantém posições aplicadas em juros nominais de prazos mais curtos, entre dois e três anos, com exposição limitada diante das incertezas do cenário doméstico.

Segundo Rodrigues, o cenário base da Kinea considera um ciclo de cortes acumulando cerca de 2,5 pontos percentuais, projeção que incorpora o risco eleitoral e o histórico de maior cautela do Banco Central em períodos próximos a eleições. Essa leitura sustenta a avaliação de que há espaço para redução do aperto monetário, ainda que o ritmo e o alcance do ciclo dependam da evolução das expectativas e da comunicação da autoridade monetária.

A estratégia local é combinada com posições no mercado internacional. A Kinea mantém apostas na elevação dos juros intermediários e longos nos Estados Unidos, considerando que o ambiente político e econômico pode estimular políticas mais expansionistas ao longo do ano. Para o gestor, esse cenário reforça a preferência por alocações em mercados onde há maior previsibilidade na condução da política monetária, entre eles o Brasil, neste momento.

Ao analisar o ambiente global, Rodrigues descreve um quadro de inflação controlada e atividade resiliente, que tende a prevalecer ao menos no primeiro semestre de 2026. Nesse contexto, ele observa que os bancos centrais já iniciaram o ciclo de cortes, enquanto os preços seguem comportados, o que cria uma janela favorável, ainda que sujeita a riscos que podem alterar a postura das autoridades monetárias, especialmente nos Estados Unidos.

Para o gestor, um dos principais desafios da política monetária doméstica é evitar uma condução excessivamente reativa ao comportamento do câmbio. Ele avalia que o Banco Central deve manter o foco no cenário base da economia e comunicar de forma clara a intenção de reduzir gradualmente o grau de restrição monetária, desde que não haja desancoragem das expectativas de inflação ou deterioração relevante do risco doméstico.

Enquanto isso, os juros reais permanecem como um indicador sensível às percepções de risco fiscal e político. Rodrigues destaca que esse segmento do mercado é majoritariamente operado por investidores locais, com menor participação estrangeira, o que ajuda a explicar o descolamento em relação à valorização recente da bolsa e do câmbio. Para ele, mesmo com taxas reais longas em níveis elevados, a atratividade desses papéis tende a surgir apenas em estágios mais avançados do ciclo de afrouxamento, quando a inflação estiver ainda mais controlada e o movimento de cortes já estiver consolidado.

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