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Decisão de juros no Brasil e nos EUA mantém mercados em compasso de espera

Mercado aguarda decisões do Copom e do Fed, com expectativa de cortes graduais a partir de março

O mercado financeiro entra na semana mais aguardada do início de 2026 com expectativa consolidada de manutenção da taxa Selic em 15% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). A avaliação é compartilhada por especialistas da Warren Investimentos e pela economista Bruna Centeno, sócia advisor da Blue3 Investimentos, que apontam um cenário de cautela tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, em meio a decisões simultâneas de política monetária.

Segundo a Warren Investimentos, a ata da reunião de dezembro do Copom frustrou a expectativa de parte do mercado que apostava em sinalizações claras de início do ciclo de cortes já em janeiro de 2026. O documento revelou um comitê ainda desconfortável com uma série de riscos inflacionários, incluindo expectativas desancoradas, convergência lenta da inflação, risco de repasse cambial e uma leitura qualitativa mais negativa da inflação corrente, especialmente no setor de serviços. A publicação da ata coincidiu com o anúncio de uma candidatura presidencial, fator que elevou a volatilidade dos ativos, pressionando juros e câmbio.

A leitura da Warren é de que o tom adotado pelo Banco Central foi interpretado como hawkish, afastando a percepção de que o comitê estaria estritamente dependente de dados pontuais para iniciar o afrouxamento monetário. A comunicação sugere uma mudança de foco, devolvendo maior peso à evolução do cenário macroeconômico como um todo e reduzindo a atenção excessiva a sinais isolados das falas dos dirigentes.

Apesar disso, a gestora avalia que a Selic segue em patamar claramente restritivo e que o aperto monetário já tem produzido efeitos sobre expectativas e atividade. O ponto de atenção permanece sendo a resiliência do mercado de trabalho, com ganhos reais de renda sustentando a atividade e pressionando a inflação de serviços. Dados do Caged indicam que comércio e serviços continuam sendo os únicos setores com saldo positivo de vagas nos últimos meses.

No cenário revisado da Warren Investimentos, o início do ciclo de flexibilização é projetado para março, com um corte inicial de 50 pontos-base, seguido por reduções graduais que levariam a Selic a 12% ao fim de 2026. No entanto, caso os riscos inflacionários se intensifiquem e a pressão do mercado de trabalho persista, o ajuste pode ser menor, com cortes acumulados de 200 pontos-base, abaixo dos 300 anteriormente estimados.

O ambiente externo também entrou no radar. Desde a última reunião do Copom, o Federal Reserve promoveu um corte de 25 pontos-base nos Fed Funds. A ata do FOMC mostrou um comitê dividido, condicionando os próximos passos à desaceleração da inflação e à dissipação dos efeitos tarifários. Dados recentes nos Estados Unidos indicaram destruição de vagas acima do esperado e sinais de enfraquecimento marginal da atividade, enquanto a política monetária segue sob escrutínio em um contexto de possíveis ruídos institucionais.

No Brasil, indicadores recentes mostraram vendas no varejo em alta de 1,0% em outubro e crescimento de 0,68% no IBC-Br. A inflação veio em linha com as expectativas, com IPCA de 0,18% em novembro, IPCA-15 de 0,25% em dezembro e IPCA fechado de 0,33% no mês, embora a composição continue desfavorável nos serviços. A pesquisa Focus indicou leve recuo nas expectativas para o IPCA de 2026, enquanto as projeções para 2027 e 2028 permaneceram estáveis.

O Relatório de Política Monetária do Banco Central reforçou esse diagnóstico ao manter estimativas de hiato do produto ainda positivas em 2025, com convergência gradual para valores negativos apenas a partir de 2027, refletindo os efeitos defasados de uma política monetária restritiva. As projeções oficiais indicam convergência do IPCA para o centro da meta apenas no primeiro trimestre de 2028.

No câmbio, dezembro foi marcado por fluxo financeiro negativo, associado à remessa de lucros e dividendos, além de mudanças nas regras do Imposto de Renda e maior volatilidade política. Com a virada do ano, o real se recuperou, retornando aos níveis observados em novembro, movimento que também contribuiu para o alívio recente na curva de juros.

Para Bruna Centeno, da Blue3 Investimentos, a primeira decisão de juros de 2026 ocorre em um contexto de “super quarta”, com reuniões simultâneas no Brasil e nos Estados Unidos. A expectativa é de manutenção das taxas em ambos os países, mas com sinais distintos. No Brasil, o desempenho recente do Ibovespa, que atingiu máximas históricas, e o fechamento da curva de juros futuros reforçam a leitura de que o mercado já precifica um possível início de cortes em março. Nos Estados Unidos, apesar de dados mistos e da desvalorização do dólar, o tom segue mais duro, com manutenção esperada também nas próximas reuniões.

Segundo a economista, fatores como fluxo estrangeiro para ativos brasileiros, tensões geopolíticas, ruídos fiscais e as primeiras medidas adotadas pelo governo americano em 2026 compõem um pano de fundo que sustenta a cautela dos bancos centrais. Nesse cenário, a expectativa para a próxima reunião do Copom é de manutenção da Selic em 15%, sem sinalizações explícitas sobre março, com o Banco Central reiterando a importância da reancoragem das expectativas, da vigilância sobre o mercado de trabalho e da melhora qualitativa da inflação corrente.

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