A valorização do real observada no início deste ano reflete, principalmente, um movimento internacional de enfraquecimento do dólar, que vem se estendendo desde 2025, combinado a fundamentos domésticos considerados favoráveis. A avaliação é de José Carlos Carvalho, chefe de macroeconomia da Vinci Compass, que aponta que o comportamento recente do câmbio brasileiro não pode ser explicado apenas por fatores internos.
Segundo o economista, a leitura predominante de que oscilações cambiais decorrem de eventos locais tende a distorcer a análise do cenário atual. Para ele, a dinâmica do dólar mais fraco é global e se manifesta de forma semelhante em diversos mercados, tendo como elemento comum a perda de força da moeda americana frente a outras divisas. Na avaliação do executivo, esse movimento não está relacionado a fatores pontuais de curto prazo, mas a uma estratégia econômica mais ampla dos Estados Unidos.
Carvalho associa o enfraquecimento do dólar a uma diretriz recorrente da política econômica americana, que busca estimular a competitividade da indústria local. Na sua leitura, uma moeda mais fraca favorece a reindustrialização ao tornar os produtos dos Estados Unidos mais competitivos no mercado internacional, movimento que já foi adotado por administrações anteriores e que voltou a ganhar força no atual contexto político.
O economista avalia que a principal ferramenta utilizada para pressionar o dólar para baixo é a política monetária. Nesse sentido, ele destaca a atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sentido de defender juros mais baixos e pressionar o Federal Reserve por cortes na taxa básica. Embora não espere uma redução imediata dos juros, Carvalho observa que a composição futura do banco central americano pode reforçar essa tendência.
Nesse contexto, o economista chama atenção para o papel de Stephen Miran, indicado para uma posição na diretoria do Fed. Segundo Carvalho, projeções associadas ao economista indicariam uma taxa de juros significativamente mais baixa ao fim do ano, o que, ainda que não se concretize, sinaliza a direção desejada pela atual administração americana.
Outros fatores, como tensões geopolíticas e movimentos de aversão a risco, não são vistos por Carvalho como motores centrais do enfraquecimento do dólar. Ele observa que ativos tradicionalmente associados à proteção, como ouro e prata, vêm se valorizando, enquanto o dólar perde espaço como porto seguro, mas avalia que esse efeito não decorre de uma estratégia deliberada, e sim de uma consequência indireta do ambiente global.
O cenário externo pode ganhar reforço adicional com eventuais ações coordenadas entre países. Carvalho destaca que uma possível atuação conjunta entre Estados Unidos e Japão para enfraquecer o dólar frente ao iene pode ampliar a pressão sobre o índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas relevantes.
Além do ambiente internacional, o economista ressalta que os fundamentos do real também contribuem para o movimento cambial. Ele aponta a entrada de recursos na conta de capital, tanto para renda fixa quanto para renda variável, e o desempenho da balança comercial como fatores relevantes. Na sua avaliação, o dólar mais fraco impulsiona os preços das commodities, beneficiando economias exportadoras como a brasileira.
Carvalho observa que o Brasil vem registrando volumes recordes de exportação no acumulado de 12 meses, mantendo saldo comercial positivo, mesmo diante de preocupações anteriores relacionadas a possíveis barreiras comerciais. Para ele, esse desempenho reforça a leitura de que a valorização do real não decorre apenas do cenário externo, mas também de condições internas favoráveis.
O economista também avalia que os mercados emergentes passaram por um período prolongado de menor interesse dos investidores, o que resultou em preços relativamente deprimidos dos ativos. Nesse contexto, ele aponta que esses mercados ainda apresentam valuation inferior ao de economias desenvolvidas, o que pode abrir espaço para realocação de capital.
No campo político, Carvalho avalia que a volatilidade associada ao cenário eleitoral tende a permanecer limitada até o início de abril, quando prazos legais exigem desincompatibilização de cargos para candidaturas. A partir desse momento, segundo ele, o mercado deve passar a precificar de forma mais clara os riscos fiscais associados aos principais nomes da disputa.
Na sua leitura, a ausência de propostas objetivas para o endereçamento da questão fiscal mantém prêmios elevados na curva de juros. Ele observa que o mercado segue precificando cortes modestos justamente pela incerteza em torno da condução das contas públicas, com taxas ainda distantes do que seria considerado um juro real neutro.









