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Economistas analisam até onde a Selic pode cair após mudança do Copom

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% trouxe menos surpresa pelo nível dos juros e mais pela mudança na comunicação do Banco Central. Pela primeira vez desde o início do ciclo restritivo, o Copom indicou de forma explícita que, caso o cenário-base se confirme, antevê iniciar o processo de flexibilização já na próxima reunião, em março. A sinalização deslocou o foco do mercado, que passou a debater o ritmo, a magnitude e o piso do ciclo de cortes.

Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, a manutenção da Selic confirmou um cenário de prudência restritiva diante da persistência inflacionária e das incertezas fiscais. Segundo ele, a inflação de serviços continua sendo o principal obstáculo à desinflação sustentada, exigindo juros elevados por mais tempo, sobretudo em um ambiente de mercado de trabalho resiliente e hiato do produto estreito.

Com base em modelos BVAR, Simioni projeta o início do ciclo de cortes em março, com redução inicial de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a cerca de 13,25% ao final de 2026, condicionada a um IPCA próximo de 4,15% e à estabilidade da relação dívida/PIB. Ele alerta que qualquer flexibilização prematura pode elevar o prêmio de risco e pressionar a curva longa de juros.

A leitura de que houve uma inflexão relevante na comunicação também é compartilhada por Pablo Spyer, economista e conselheiro da Ancord. Para ele, o Banco Central forneceu um forward guidance claro, ainda que fortemente condicionado, reconhecendo os efeitos da política monetária sem ignorar a resiliência do mercado de trabalho e a inflação de serviços.

Segundo Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, o comunicado foi mais dovish ao explicitar março como cenário-base para o início dos cortes. Ela avalia que o cenário implícito nas projeções do Banco Central é compatível com um corte de 50 pontos-base, embora o Comitê tenha reforçado a necessidade de cautela quanto ao ritmo do ciclo.

Para Lucas Constantino, estrategista-chefe da GCB Investimentos, o Copom preservou uma postura conservadora ao evitar qualquer compromisso automático com cortes sucessivos, mantendo a política monetária fortemente dependente da evolução dos dados e da confiança no processo de convergência da inflação à meta.

Na avaliação de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o mercado antecipou a leitura do Banco Central. A curva de juros passou a precificar probabilidade majoritária de um corte de 0,5 ponto percentual em março, movimento que, combinado ao fluxo estrangeiro, levou o Ibovespa a novo recorde histórico.

Já Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, destaca que, apesar do compromisso explícito com o início do ciclo de cortes, o piso da Selic deve permanecer elevado. Em sua avaliação, o ciclo tende a se encerrar entre 12% e 13%, mantendo a política monetária em patamar contracionista ao longo de 2026.

Visão semelhante é apresentada por Raphael Vieira, co-head de investimentos da Arton Advisors, para quem o Banco Central busca equilibrar o espaço técnico para iniciar a flexibilização com a necessidade de preservar a credibilidade do regime de metas em um ambiente ainda marcado por incertezas fiscais e cambiais.

A análise foi reforçada por Ariane Benedito, economista do PicPay. Segundo ela, o comunicado combina um tom dovish condicional com uma âncora clara de prudência. Apesar de reconhecer a moderação da atividade, o Copom destacou a persistência da inflação de serviços, a resiliência do mercado de trabalho e um balanço de riscos ainda elevado. Ariane avalia que, se o cenário-base se confirmar, o Banco Central deve iniciar o ciclo de cortes em março com uma redução de 0,50 ponto percentual.

Em conjunto, as análises convergem para a leitura de que o Copom abriu a porta para a flexibilização monetária, mas deixou claro que o ciclo será gradual, condicionado e altamente dependente da inflação de serviços, das expectativas, do câmbio e do cenário fiscal. Março se consolida como o novo ponto focal da política monetária brasileira, enquanto o debate passa a ser até onde a Selic pode cair sem comprometer a credibilidade do regime de metas.

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