O ano de 2026 deve marcar uma transição estrutural no setor de serviços financeiros, com a passagem da fase de digitalização para um estágio de inteligência financeira agêntica e hiperpersonalização. A avaliação é de Jacqueline Barros, associate manager da Peers Consulting + Technology, que aponta uma mudança de foco das instituições financeiras após um período marcado por aceleração digital pós-pandemia e, na sequência, por um ambiente econômico adverso, com juros elevados e crédito restrito.
Segundo a especialista, o setor entra em um ciclo de maior maturidade tecnológica e competição acirrada, no qual a capacidade de inovar, otimizar custos e transformar dados em valor para o cliente será decisiva. No segmento bancário, após a consolidação das posições dos grandes bancos, a principal disputa em 2026 deve ocorrer em torno da hiperpersonalização da experiência do cliente, com a inteligência artificial generativa e agêntica deixando de ser diferencial para se tornar elemento central da operação.
Jacqueline Barros destaca que apenas cerca de 17% das empresas brasileiras devem atingir um estágio considerado agêntico em inteligência artificial em 2026, mas o setor bancário lidera esse movimento. A expectativa é de ganhos relevantes de eficiência e de até 30% de aumento nas vendas, combinando atendimento humano com soluções baseadas em IA capazes de antecipar necessidades e oferecer serviços proativos, como consultoria financeira e otimização de investimentos.
Outro vetor relevante é a maturidade do Open Finance. Com a entrada da Fase 4, que permite a portabilidade do crédito consignado a partir de fevereiro de 2026, a competição tende a se intensificar. Na avaliação da analista, os bancos que conseguirem ir além da conformidade regulatória e utilizar os dados compartilhados para gerar valor real ao cliente, com ofertas mais adequadas ao perfil de risco e renda, devem se destacar nesse novo ambiente.
No mercado de pagamentos, a expectativa é de consolidação do Pix como infraestrutura financeira dominante no Brasil. A projeção é de que o sistema responda por cerca de 45% dos pagamentos digitais em 2026, ampliando seu alcance inclusive para operações internacionais. A plena operação do Pix Automático é apontada como um dos principais catalisadores dessa transformação, com potencial para substituir uma parcela relevante dos boletos e do débito em conta tradicional, reduzindo inadimplência e aumentando a eficiência operacional.
Além disso, o Pix por aproximação, lançado em 2025, tende a ganhar escala em 2026, integrando-se a carteiras digitais como Apple Pay e Google Pay. A combinação desses avanços deve acelerar a adoção de pagamentos invisíveis e de modelos de embedded finance, nos quais a transação ocorre de forma integrada à jornada do cliente, reduzindo o papel do checkout tradicional.
Nesse contexto, surgem os chamados pagamentos agênticos, em que agentes de inteligência artificial passam a executar transações em nome dos usuários, dentro de parâmetros previamente definidos. De acordo com Jacqueline Barros, esse modelo pode ampliar significativamente a conveniência e a eficiência, mas exige o fortalecimento de mecanismos de governança, segurança e rastreabilidade para mitigar riscos e preservar a confiança no sistema financeiro.
A preparação para esse cenário, segundo a analista, ocorre em um ambiente ainda desafiador do ponto de vista macroeconômico. A taxa Selic encerrou 2025 em 15% e, embora haja expectativa de queda ao longo de 2026, o custo de capital permanece elevado, o que exige maior disciplina estratégica por parte das instituições.
Entre as prioridades para os players de Financial Services em 2026 estão o investimento estruturado em inteligência artificial além da automação, o uso estratégico dos dados do Open Finance, o reforço em segurança cibernética e proteção de dados, a oferta de experiências cada vez mais fluidas e a preparação para a tokenização de ativos. A criação de mercados organizados de ativos digitais, como os planejados pela B3, é apontada como um movimento que pode transformar nichos do mercado de capitais antes de uma eventual massificação.
Na avaliação da Peers Consulting + Technology, o setor financeiro em 2026 estará menos focado apenas em transações e mais na construção de relações financeiras inteligentes, seguras e altamente personalizadas, nas quais a tecnologia atua como catalisador de confiança, geração de valor e sustentabilidade dos negócios.









