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Leitura do IPCA reforça desinflação irregular e debate sobre ritmo da Selic

Pressão em núcleos e serviços subjacentes no IPCA mantém cautela sobre cortes de juros, apontam analistas

O IPCA de janeiro registrou alta de 0,33%, em linha com as estimativas do mercado, mas a composição do índice reacendeu o debate entre analistas sobre o grau de conforto do Banco Central para iniciar o ciclo de cortes de juros. A leitura mostrou alívio pontual em alguns itens, mas manteve sinais de pressão em núcleos e serviços subjacentes, elementos centrais para a política monetária.

Para Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, o resultado próximo da expectativa não elimina as preocupações qualitativas. Segundo ela, o principal impacto positivo veio do grupo habitação, beneficiado pela vigência da bandeira tarifária verde na conta de luz, enquanto a maior pressão foi observada em transportes, puxada pela alta da gasolina após o reajuste do ICMS. Ainda assim, a analista destaca que os núcleos avançaram 0,40% e os serviços subjacentes subiram 0,57%, acima do esperado, além de a difusão ter aumentado de 60% para 64%, indicando um avanço mais disseminado dos preços. Na leitura de Paixão, esses fatores explicam a alta da curva de juros após a divulgação e reduzem a probabilidade de um corte de 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom, embora o mercado ainda precifique esse cenário como base.

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, avalia que o IPCA confirmou uma inflação mais comportada na margem, com algum alívio em serviços, especialmente em passagens aéreas, transporte por aplicativo e seguros, além do efeito positivo da bandeira verde de energia. No entanto, segundo ele, o mercado esperava um número qualitativamente mais fraco, o que não se materializou. Para Spyer, a pressão maior do que o previsto em núcleos e serviços subjacentes explica a abertura dos juros futuros e reforça a leitura de uma desinflação irregular, ainda sujeita a ruídos. Na visão do economista, o dado não impede o início do ciclo de cortes, mas reduz o conforto do Banco Central, tornando mais provável um corte inicial da taxa Selic de 0,25 ponto percentual, em vez de 0,50 ponto.

Na avaliação de Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, o IPCA de janeiro veio exatamente em linha com as projeções da casa. Ela destaca uma abertura balanceada, com serviços subjacentes comportados, especialmente nos segmentos mais intensivos em mão de obra, enquanto os preços industriais surpreenderam para cima, com destaque para bens duráveis. Para Rodrigues, o resultado não altera o cenário de inflação nem a condução da política monetária, e a instituição mantém projeção de IPCA em 4,1% em 2026 e Selic em 13%.

Já Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, classifica a leitura como razoavelmente benigna, ressaltando a desaceleração da inflação de serviços, que recuou de 0,72% para 0,10% entre dezembro e janeiro, influenciada pelas quedas em passagens aéreas e transporte por aplicativo. Segundo ele, a valorização recente do real também tem contribuído para aliviar preços sensíveis ao câmbio, reforçando um processo gradual de desinflação. Nesse contexto, Shahini vê suporte para um corte de 0,50 ponto percentual na Selic já na reunião de março.

Uma leitura mais detalhada da composição, no entanto, aponta nuances importantes. Os serviços subjacentes permaneceram praticamente estáveis, em 0,57%, refletindo rigidez em itens ligados à mão de obra e aluguel residencial, enquanto categorias mais sensíveis ao nível de ociosidade mostraram comportamento mais ameno. Os bens industriais aceleraram, movimento que, na avaliação de Matheus Pizzani, economista do PicPay, pode refletir uma tentativa de recomposição de margens pelas empresas, tornando esse grupo um ponto de atenção para os próximos meses.

Para Pizzani, o IPCA de janeiro pode ser interpretado como um dado de transição, entre um período de crescimento mais acelerado e um cenário de maior acomodação econômica. A consolidação da desaceleração ao longo do ano, combinada com um câmbio mais favorável, tende a reduzir a resiliência dos serviços intensivos em mão de obra e abrir espaço para uma composição inflacionária mais benigna, permitindo ao Banco Central construir um ciclo de queda de juros mais consistente.

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