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Petróleo supera US$ 119 com crise no Oriente Médio e China suspende exportações de diesel e gasolina

China suspende exportações de diesel, Coreia do Sul avalia teto de preço e Arábia Saudita intercepta drones no campo de Shaybah

O mercado global de energia entrou em colapso de oferta neste domingo (8), com o preço do petróleo disparando para níveis não vistos desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022. O barril de Brent atingiu US$ 119,50 na abertura dos mercados asiáticos, enquanto o West Texas Intermediate chegou a US$ 119,48, ambos com alta de 25% em relação ao fechamento anterior. É a primeira vez que o petróleo ultrapassa a barreira dos US$ 100 por barril em mais de três anos, e analistas do setor alertam que esse patamar pode ser apenas um ponto de passagem rumo a valores ainda mais elevados.

Para entender a magnitude do choque, é necessário compreender a combinação de fatores que convergiu simultaneamente para desestabilizar o mercado de energia global. O primeiro é o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde normalmente transita cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. O estreito permanece bloqueado para a navegação de petroleiros desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã há mais de uma semana, sem perspectiva imediata de reabertura.

O segundo fator é a redução voluntária ou forçada da produção por países da região: os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait iniciaram cortes de produção diante do bloqueio, e o Iraque paralisou parcialmente suas operações na semana passada. O terceiro elemento é a escalada retórica e militar do conflito, com os Estados Unidos sinalizando disposição para ampliar os alvos de seus ataques ao Irã, aumentando o grau de incerteza sobre a duração e o escopo da guerra.

A Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do mundo, está no centro das preocupações do mercado. No fim de semana, o país interceptou e destruiu drones que se dirigiam ao campo petrolífero de Shaybah, instalação com capacidade de produção de 1 milhão de barris por dia.

Na semana passada, o reino foi forçado a interromper as operações na refinaria de Ras Tanura, a maior refinaria saudita, e busca redirecionar sua produção para portos no Mar Vermelho como alternativa ao Estreito de Ormuz bloqueado. A combinação de ameaças à infraestrutura produtiva e às rotas de escoamento representa o cenário mais adverso que o mercado saudita enfrentou em décadas.

A velocidade do aperto na oferta pode ser medida por um indicador técnico: o spread à vista do Brent, que mede a diferença entre os dois contratos de vencimento mais próximos, saltou de US$ 0,58 por barril há um mês para US$ 5,49 atualmente. Esse aumento expressivo na estrutura de preços do mercado futuro indica que os agentes financeiros estão precificando uma escassez imediata de petróleo, não apenas um risco de médio prazo.

Quando os contratos mais curtos ficam significativamente mais caros do que os contratos longos, o mercado sinaliza que a demanda presente supera a oferta disponível — uma condição conhecida como backwardation intensa, que tende a atrair mais compradores para estoques físicos e pressionar ainda mais os preços no curto prazo.

Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, avaliou que o nível psicológico de US$ 100 por barril pode ser apenas uma meta de preço de curto prazo. Segundo o analista, os preços tendem a continuar subindo enquanto o conflito se prolongar, a produção seguir sendo reduzida e os navios-tanque permanecerem impossibilitados de recarregar nos portos da região.

A perspectiva de que mais de uma dúzia de países foram arrastados para o conflito alimenta temores de uma crise inflacionária de proporções globais, com efeitos que se espalhariam por toda a cadeia produtiva mundial, dos combustíveis ao transporte de cargas, passando pela geração de energia e pela produção de alimentos.

Os impactos já se manifestam nas decisões de política econômica de países consumidores. A China, maior importadora de petróleo do mundo, ordenou que suas principais refinarias suspendam as exportações de diesel e gasolina, priorizando o abastecimento interno diante da perspectiva de escassez. A Coreia do Sul avalia a introdução de um teto para o preço do petróleo pela primeira vez em 30 anos, medida de emergência que não era cogitada desde os choques de energia da década de 1990. Nos Estados Unidos, os preços da gasolina atingiram o nível mais alto desde agosto de 2024, criando um desafio político significativo para o presidente Donald Trump e seu partido às vésperas das eleições de meio de mandato de 2026.

A despeito das pressões domésticas, Trump sinalizou disposição para intensificar o conflito. Em publicação nas redes sociais no início da manhã de sábado, o presidente americano afirmou que os Estados Unidos considerarão atacar áreas e grupos no Irã que não eram considerados alvos anteriormente.

A declaração veio em resposta ao presidente iraniano Masoud Pezeshkian, que prometeu não recuar diante da pressão militar americana e israelense. Com os dois lados sinalizando escalada, o mercado de energia opera sem horizonte claro de normalização, consolidando a perspectiva de que o choque de preços do petróleo pode se prolongar por semanas ou meses antes que qualquer solução diplomática ou militar emerja.

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