A estratégia de defesa de Daniel Vorcaro no caso do Banco Master estava construída sobre um argumento central: o Banco Central acompanhava todas as operações da instituição e, portanto, nada poderia ter ocorrido de irregular sem o conhecimento e o consentimento implícito do órgão regulador. O próprio banqueiro explicitou essa tática em depoimento prestado à Polícia Federal no dia 30 de dezembro, ao afirmar que o BC estava presente no dia a dia do banco e que a supervisão era diária, chegando a ocorrer várias vezes ao mesmo dia. Para sustentar essa linha argumentativa, Vorcaro pretendia utilizar mensagens e documentos produzidos pelos dois servidores do Banco Central que ele mesmo havia cooptado — os mesmos que, segundo as investigações, recebiam benefícios para proteger o Master e repassar informações internas ao banqueiro.
A lógica da defesa era sofisticada em sua perversidade: ao corromper os servidores responsáveis pela fiscalização, Vorcaro criava simultaneamente um esquema de proteção operacional e um arsenal de documentos que poderiam ser usados posteriormente para argumentar que o regulador estava ciente de tudo e nada havia contestado. Se o BC acompanhava cada passo e nunca impediu nenhuma operação, a tese seria a de que as práticas do Master tinham aval tácito do órgão supervisório. No depoimento, o banqueiro citou especificamente as vendas de carteiras de crédito da Tirreno para o Banco de Brasília e a compra de precatórios como exemplos de operações que haviam passado pelas diligências regulatórias do BC sem qualquer objeção.
Os dois servidores centrais nesse esquema eram Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central entre 2017 e 2023, e Belline Santana, chefe da área de fiscalização bancária. Ambos eram os responsáveis diretos pelo acompanhamento do Master e pelo repasse de informações ao diretor de Fiscalização Ailton de Aquino, que não integrava o esquema. Segundo as investigações da Polícia Federal, os dois recebiam benefícios de Vorcaro em troca de informações privilegiadas, orientações sobre como se comportar em reuniões com o BC e revisão de documentos que seriam posteriormente analisados pelo próprio órgão regulador.
A relação entre Paulo Sérgio e Vorcaro ia além do esquema de informações. Em 2021, o ex-diretor vendeu uma fazenda de café para um fundo ligado à família do banqueiro, mas continuou usufruindo da propriedade sob a justificativa de que ela havia sido arrendada em função da alta dos preços do produto no mercado internacional. Belline, por sua vez, chegou a atrasar deliberadamente o envio de documentos exigidos pela Polícia Federal no curso das investigações, comportamento que, à luz das evidências subsequentes, ganhou contornos de obstrução. Os dois foram afastados pelo Banco Central em janeiro de 2026, após meses de desconfiança interna dentro do próprio órgão. Na semana passada, por decisão do ministro André Mendonça, do STF, tornaram-se alvos de medidas cautelares que incluem uso de tornozeleira eletrônica e proibição de deixar o país.
Com a investigação formal dos dois servidores e a exposição pública do esquema de cooptação, a estratégia de defesa de Vorcaro perde sua sustentação. Os documentos que o banqueiro pretendia usar para responsabilizar o BC passam a ser, na prática, evidências de que a supervisão havia sido sabotada por dentro, e não de que o regulador havia consentido com as práticas do Master. O processo que tramita no Tribunal de Contas da União sob relatoria do ministro Jhonatan de Jesus, que chegou a afirmar que o BC teria se precipitado na liquidação do banco, também perde força diante das novas revelações sobre o grau de comprometimento dos servidores responsáveis pela fiscalização da instituição.










