O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a inflação voltou ao centro do debate econômico, mas agora ligada diretamente à percepção da população sobre o custo de vida. Segundo ele, a sociedade passou a reagir menos às variações do índice e mais ao nível de preços acumulado, o que altera a forma como a política monetária é avaliada. “Essa é uma sociedade que não tolera mais inflação. A inflação e o tema de affordability viraram centrais”, disse.
Galípolo destacou uma “dissonância” entre os indicadores oficiais e a percepção das famílias. Enquanto o Banco Central acompanha a inflação, a população sente o impacto do preço já elevado, mesmo com desaceleração dos índices. “Banqueiros centrais olham para a inflação, mas a população está focada no nível de preço”, afirmou, ressaltando que isso tem gerado ceticismo em relação aos dados econômicos.
O cenário é influenciado por uma sequência recente de choques de oferta globais, como pandemia, crises logísticas e conflitos geopolíticos, que elevaram custos e aumentaram a incerteza. Para Galípolo, esses eventos dificultam a leitura da economia e ajudam a explicar o distanciamento entre dados e percepção. “Estamos falando de quatro choques de oferta em seis anos”, disse.
Diante desse contexto, o presidente do BC defendeu maior cautela na condução da política monetária. Ele afirmou que estratégias que ignoravam choques temporários perderam espaço e alertou para o risco de perda de credibilidade. “O custo de credibilidade de dizer que o choque é temporário, pela quarta vez, é muito alto.”
Galípolo também ressaltou os limites da política monetária diante de choques de oferta, já que as ferramentas do BC atuam principalmente sobre a demanda. Segundo ele, o ambiente atual reduz o espaço para ajustes finos e aumenta o risco de críticas, independentemente do resultado. “Se a economia vai melhor, é porque você fez pouco. Se vai pior, é porque você está atrasado.”










