O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira (8) em depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado que não há nenhum processo de auditoria ou sindicância que aponte qualquer culpa do ex-presidente Roberto Campos Neto no crescimento ou nas fraudes que envolvem o Banco Master. A declaração ocorreu no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a atacar publicamente Campos Neto, afirmando que o ex-chefe do BC é “a serpente que pôs o ovo” do caso Master ao ter autorizado a transferência do controle do banco para Daniel Vorcaro.
A defesa de Galípolo ao antecessor veio num contexto politicamente delicado. Campos Neto havia sido convocado para comparecer à CPI mas faltou à sessão. No mês passado, ao se manifestar pela primeira vez sobre o caso, o ex-presidente do BC afirmou que a cúpula da autarquia não trata diretamente de operações de bancos de médio porte e não pode ser responsabilizada por falha de terceiros.
A trajetória do relacionamento entre o BC e o Master sob Campos Neto tem nuances relevantes. Em fevereiro de 2019, a autoridade monetária negou a autorização para transferir o controle do então Banco Máxima para Vorcaro. Em outubro do mesmo ano, mudou de posição e autorizou a transferência. Vorcaro havia apelado ao então diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves Souza para obter a autorização, e Souza é hoje suspeito de ter recebido mesadas para trabalhar em favor do banqueiro dentro do BC. Galípolo revelou à CPI que em 2023 o próprio Campos Neto havia solicitado justamente a Paulo Souza, ainda no cargo, uma análise do balanço do Master, demonstrando que havia preocupação interna com a instituição. No fim de 2024, a área de Fiscalização também contratou três escritórios de advocacia para análises adicionais.
Enquanto Galípolo isentava Campos Neto, Lula intensificava os ataques ao ex-presidente do BC em entrevista ao canal ICL Notícias. “O Ilan Goldfajn, que era presidente do Banco Central, recusou reconhecer o Banco Master. O Roberto Campos legalizou o Banco Master”, disse o presidente. Lula também atribuiu as fraudes ao governo Bolsonaro e ao ministro Paulo Guedes, afirmando que as falcatruas ligadas ao Master têm na genealogia o governo anterior.
Na mesma audiência, Galípolo detalhou pela primeira vez o conteúdo da reunião entre Lula e representantes do Master em dezembro de 2024. Segundo o presidente do BC, Lula disse aos executivos que o tema era de competência técnica do Banco Central e que a análise seria conduzida de forma isenta. Na reunião, os representantes do Master alegaram ao presidente que estavam sendo perseguidos pelo mercado financeiro e que a dificuldade de captação decorria dessa perseguição, versão que Galípolo disse não ser aderente ao tamanho real da instituição.
Galípolo também descreveu o padrão que chamou atenção da fiscalização no início de 2025: o Master estava constituindo carteiras de crédito novas e as vendendo imediatamente para gerar liquidez, comportamento que o presidente do BC comparou a alguém que compra um carro para vendê-lo no mesmo dia porque precisa de dinheiro. A identificação dessas operações levou à criação de um grupo de trabalho interno, e em março a investigação foi levada pelo diretor Ailton de Aquino à presidência da autarquia. Galípolo ressaltou que a checagem das carteiras é complexa e demanda tempo, e que a legislação exige que o BC esgote alternativas de mercado antes de liquidar um banco.
O presidente do BC afirmou ainda que foi uma sindicância interna da autarquia que identificou os indícios de favorecimento indevido aos servidores Paulo Souza e Belline Santana, hoje afastados e investigados pela Polícia Federal. Galípolo disse que sempre teve autonomia plena para conduzir seu trabalho e que a única orientação recebida do governo foi não proteger nem perseguir ninguém no caso Master.










