Gabriel Galípolo usou uma imagem incomum para descrever o mercado de crédito brasileiro em palestra na FEA-USP nesta sexta-feira. Ao citar os 40 milhões de brasileiros que usam cartão de crédito com taxa de inadimplência de 60%, o presidente do Banco Central perguntou: “Você entra num avião que cai 60% das vezes?”
A provocação ilustra um argumento mais técnico sobre os canais de transmissão da política monetária. Quando o BC sobe os juros para conter a inflação, a lógica é que o crédito fique mais caro, o consumo desacelere e os preços se acomodem. Esse mecanismo, porém, funciona de forma distorcida quando uma parcela relevante da população usa o cartão de crédito não como instrumento financeiro, mas como extensão da renda disponível.
“O limite do cartão de crédito que aparece lá é visto como um pedaço da renda disponível para uma eventual emergência”, disse Galípolo. O problema, na visão do presidente do BC, começa antes disso: muitos brasileiros sequer se reconhecem como endividados enquanto mantêm os pagamentos em dia. “Você pergunta para as pessoas que estão com algum tipo de financiamento: ‘Você tem dívida?’. ‘Não’. O brasileiro só acha que tem dívida quando fica atrasado numa prestação.”
Galípolo reconheceu que esse comportamento não decorre apenas de má gestão financeira individual, mas também de um arranjo que dá estímulos equivocados ao consumidor e, em muitos casos, da ausência de alternativas melhores de crédito acessível.










