As operações com stablecoins mais que triplicaram no Brasil em três anos e chegaram a R$ 404,8 bilhões em 2025. O volume era de R$ 120 bilhões em 2022, o que representa crescimento de aproximadamente 3,3 vezes no período, segundo levantamento baseado em dados da Receita Federal apresentado durante o Digital Assets Conference (DAC 2026).
Em termos proporcionais, a expansão ocorreu em ritmo semelhante ao registrado pelo Pix. O sistema de pagamentos movimentou R$ 10,9 trilhões em 2022 e R$ 35,3 trilhões em 2025, avanço de cerca de 3,2 vezes. Os valores absolutos são muito diferentes e refletem mercados de dimensões distintas, mas a comparação evidencia a velocidade de crescimento das stablecoins no país.
Esses ativos digitais são desenvolvidos para manter seu valor vinculado a uma referência, geralmente uma moeda como dólar ou real. Inicialmente concentradas na negociação de criptoativos, as stablecoins vêm ampliando sua utilização em pagamentos, remessas internacionais e liquidação de operações financeiras.
Segundo Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin, essa transformação já aparece na composição das operações brasileiras. Em 2019, as stablecoins correspondiam a aproximadamente 3% do volume reportado de negociações de criptoativos no país. Atualmente, a participação supera 80%, com cerca de 90% desse montante concentrado em USDT, stablecoin emitida pela Tether e vinculada ao dólar.
Para Tota, a expansão para pagamentos exige mais do que infraestrutura baseada em blockchain. Empresas do setor precisam se conectar a prestadores de serviços de pagamento, cumprir requisitos regulatórios e integrar suas operações ao sistema financeiro tradicional.
O mercado brasileiro ainda apresenta forte concentração em stablecoins vinculadas a moedas estrangeiras, especialmente ao dólar, mas empresas também buscam desenvolver alternativas denominadas em reais. John Delaney, fundador da Crown, considera que o tamanho da economia brasileira e a ausência de um processo recente de dolarização criam espaço para o desenvolvimento de moedas digitais pareadas ao real.
Delaney projeta que, em um cenário de dez anos no qual 8% da circulação de reais ocorra por meio de stablecoins, o mercado poderia atingir aproximadamente R$ 1 trilhão em emissões. Trata-se de uma projeção do executivo, condicionada ao avanço da adoção desses instrumentos e não de uma estimativa consolidada para o setor.
A segurança das reservas que sustentam esses ativos também aparece entre os pontos centrais da discussão. No caso da BRLV, emitida pela Crown e vinculada ao real, Delaney destacou a utilização de segregação patrimonial como mecanismo para separar os recursos dos detentores do patrimônio da emissora.
A evolução regulatória deverá ter papel relevante na próxima etapa desse mercado. Juan Pablo, da Sphere, defendeu uma abordagem centrada em conformidade para operações institucionais e transfronteiriças e apontou a necessidade de maior padronização regulatória entre os países latino-americanos.
Na avaliação do executivo, stablecoins poderão ganhar participação relevante em pagamentos internacionais e remessas à medida que empresas busquem mecanismos de liquidação mais rápidos. A dimensão dessa adoção, entretanto, dependerá das regras estabelecidas pelos reguladores e da integração desses ativos com as estruturas financeiras existentes.
Rodrigo Stallone, da Tether, classificou o momento atual como uma fase de adoção institucional. Na avaliação do executivo, as stablecoins começam a deixar de funcionar apenas como instrumentos associados ao mercado de criptomoedas para assumir também um papel na liquidação de ativos financeiros tokenizados.
Os dados apresentados no DAC 2026 mostram que essa transição já ocorre em um mercado brasileiro com volumes crescentes. Apesar de ainda distante da escala movimentada por sistemas tradicionais como o Pix, o avanço das stablecoins amplia a discussão sobre seu papel em pagamentos, transferências internacionais e na infraestrutura financeira digital.









