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Operação mira Banco Genial e delator do Master em esquema de combustíveis

Gaeco investiga suspeita de lavagem na aquisição da Terrana, negócio de até R$ 153 milhões que teria utilizado fundos e estruturas financeiras

Uma nova operação contra suspeitas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis chegou nesta quinta-feira (24) ao mercado financeiro. A Operação Crédito Oculto cumpre buscas em 32 endereços de 11 cidades, distribuídas por seis estados e pelo Distrito Federal, para investigar uma estrutura que, segundo o Ministério Público de São Paulo, teria sido usada para esconder a origem de recursos e os verdadeiros compradores da distribuidora Terrana.

Entre os 40 alvos estão Humberto Tupinambá, sócio-proprietário do Banco Genial, e Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, empresário ligado ao Grupo Entre e que firmou colaboração premiada no caso Banco Master. Freixo já havia aparecido em outras investigações envolvendo o ecossistema do Master, enquanto empresas de seu grupo foram submetidas a medidas do Banco Central neste ano.

As buscas foram solicitadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e autorizadas pela 2ª Vara Criminal de Catanduva. A investigação é um desdobramento das apurações iniciadas na Operação Carbono Oculto, que já havia identificado suspeitas de utilização de fundos de investimento e estruturas financeiras para movimentar e ocultar recursos relacionados ao setor de combustíveis. Em outra etapa da investigação, autoridades apontaram movimentações bilionárias por fintechs suspeitas de funcionar como braços financeiros do esquema.

O centro da nova apuração é a aquisição da Terrana, nome fantasia da Tobrás Distribuidora de Combustíveis. Segundo os investigadores, Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, teriam sido os verdadeiros compradores da companhia, em uma operação cujo valor poderia chegar a R$ 153 milhões. Os dois estão foragidos desde a primeira fase da Carbono Oculto, em agosto de 2025.

A suspeita do Gaeco é que diferentes fundos e empresas tenham sido organizados para impedir que vendedores, autoridades e órgãos reguladores identificassem quem efetivamente controlava os recursos empregados no negócio. Os investigadores descrevem uma estrutura envolvendo nove fundos de investimento e 27 empresas. Dezesseis delas tiveram bens tornados indisponíveis por decisão judicial.

Uma das estruturas investigadas envolve o Fundo Radford, inicialmente ligado à Altinvest e posteriormente transferido para administração e custódia do Banco Genial, segundo a investigação. O fundo tinha como cotista a Usina Itajobi, empresa que os investigadores associam ao grupo de Beto Louco e Primo.

A apuração sustenta que R$ 100 milhões teriam chegado à usina a partir do Grupo Aster, depois de passarem por outras empresas. Outros R$ 20 milhões teriam sido enviados pela Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior. O Grupo Entre já apareceu em investigações sobre transações relacionadas ao Banco Master e Daniel Vorcaro. Reportagens anteriores apontaram, com base em documentos da investigação, movimentações entre empresas do grupo e estruturas ligadas ao antigo banco.

Segundo a reconstrução feita pelo Gaeco, recursos da Usina Itajobi foram aplicados por meio do Radford em um Certificado de Depósito Bancário Vinculado. O Genial teria então concedido crédito às holdings Berna e Branson por meio de Cédula de Crédito Bancário. Para os promotores, essa sequência teria servido para afastar formalmente a origem do dinheiro utilizado na aquisição da Terrana.

O Ministério Público atribui ao Banco Genial participação na estrutura financeira usada na operação e sustenta que contratos teriam ajudado a ocultar os financiadores e beneficiários reais do negócio. Essas afirmações representam a tese da investigação e ainda estão sujeitas ao contraditório e à análise judicial; o cumprimento de mandados de busca não representa reconhecimento de responsabilidade criminal.

Ao prestar informações anteriormente ao Gaeco sobre o Radford, o Genial afirmou que o fundo havia sido constituído como condomínio fechado, com classe única de cotas e política voltada principalmente a créditos privados. Segundo o banco, as cotas somavam cerca de R$ 169,7 milhões quando foi deflagrada a Carbono Oculto.

A instituição também informou que sua área de crédito aprovou o financiamento às holdings Berna e Branson levando em consideração, entre outros elementos, a reputação de Paulo Narcélio Simões do Amaral no mercado. Depois da Carbono Oculto, o banco comunicou aos investigadores que renunciou à administração do Radford, liquidou o certificado vinculado e transferiu ao fundo sua posição no crédito concedido às holdings.

O Gaeco, entretanto, afirma ter encontrado mensagens no celular de Narcélio que indicariam participação mais ampla de pessoas investigadas na estruturação da operação. Conversas analisadas pelos promotores tratariam do preço da Terrana, da participação de Beto Louco e Primo nas decisões e da remuneração de Narcélio para permanecer formalmente ligado às holdings utilizadas no negócio.

Os investigadores também atribuem papel relevante a Humberto Tupinambá e a seus irmãos André e Bruno, igualmente alvos das buscas. De acordo com o Gaeco, mensagens recuperadas mostram discussões sobre a aquisição da distribuidora e sua posterior reorganização. As conclusões são baseadas no material reunido pela investigação e não equivalem a condenação dos citados.

A nova ofensiva amplia uma investigação que já alcançou fintechs, gestoras e fundos de investimento. Em maio, uma etapa da Carbono Oculto investigou instituições suspeitas de participar de movimentações superiores a R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025 por meio de mecanismos como contas concentradoras e estruturas de blindagem patrimonial.

Antônio Carlos Freixo Júnior também aparece em outra frente das investigações financeiras recentes. Ele controla o Grupo Entre, e a Entrepay, integrante do conglomerado, foi liquidada pelo Banco Central em março por comprometimento da situação econômico-financeira, infrações às normas de funcionamento e riscos aos credores. O Grupo Entre negou anteriormente que Daniel Vorcaro tivesse participação societária ou controle sobre suas empresas.

A Operação Crédito Oculto busca agora reunir novas provas sobre a origem dos recursos, o funcionamento dos fundos e o papel desempenhado por cada pessoa e instituição na aquisição da Terrana. As suspeitas descritas pelo Ministério Público ainda dependem do avanço das investigações e de eventual responsabilização judicial.

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