Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam negociações envolvendo ações da Ambipar, operações de crédito e movimentações bilionárias que conectavam o banco à empresa de gestão ambiental. Os diálogos, obtidos pelo jornal Valor Econômico, mostram que as tratativas continuaram até 20 de outubro de 2025, data em que a Ambipar apresentou seu pedido de recuperação judicial, em meio à deterioração financeira das duas instituições.
As conversas envolvem principalmente Vorcaro e Maurício Quadrado, ex-sócio e parceiro de negócios do banqueiro, além de referências a Tércio Borlenghi Jr., controlador da Ambipar, e ao empresário Nelson Tanure. O conjunto de mensagens descreve tentativas de transformar a valorização das ações da companhia em recursos financeiros, reorganizar garantias e solucionar obrigações entre os participantes.
A operação teve origem em 2024, quando fundos ligados à estrutura do Banco Master passaram a adquirir ações da Ambipar. Durante a valorização dos papéis, Quadrado calculou que os ganhos potenciais ultrapassavam R$ 1 bilhão. A dificuldade estava em realizar esse lucro, já que o volume de negociações das ações no mercado era limitado e parte dos ativos estava comprometida em estruturas financeiras.
O movimento teve relevância para os números do Master. Entre dezembro de 2023 e o encerramento de 2024, o patrimônio líquido do banco passou de R$ 2,4 bilhões para R$ 4,7 bilhões. A valorização dos ativos ligados à Ambipar contribuiu para esse crescimento, embora o aumento contábil não representasse necessariamente disponibilidade equivalente de dinheiro em caixa.
Em julho de 2024, Quadrado já discutia com Vorcaro como distribuir os resultados da operação. No dia 31 daquele mês, estimou um ganho de R$ 500 milhões e sugeriu que ambos assumissem os riscos em troca de uma participação nos lucros.
A negociação avançou em agosto. Em mensagem enviada no dia 21, Quadrado apresentou uma divisão que, segundo ele, havia sido acertada com Tércio: dos R$ 1 bilhão em ganhos estimados, R$ 550 milhões ficariam com o controlador da Ambipar, R$ 285 milhões com Vorcaro e R$ 165 milhões com o próprio Quadrado.
O banqueiro discordou dos valores. Argumentou que a posição em ações poderia alcançar R$ 2 bilhões e considerou insuficiente a parcela que receberia. Preferia manter a exposição ao ativo a encerrar a operação nas condições apresentadas.
Quadrado tentou convencê-lo destacando a baixa liquidez dos papéis. Pelos seus cálculos, o preço médio de aquisição havia sido de R$ 35,44 por ação, enquanto a cotação de R$ 78 proporcionava um ganho potencial de R$ 1,125 bilhão.
Uma das alternativas discutidas para monetizar a posição envolvia um empréstimo de R$ 650 milhões e a aquisição do fundo Esna por Nelson Tanure. A estrutura permitiria distribuir parte dos recursos entre os envolvidos sem depender exclusivamente da venda das ações em Bolsa.
A partir de setembro de 2024, os diálogos passaram a associar a posição na Ambipar a necessidades de financiamento e compromissos com outras instituições. Em uma troca de mensagens, Vorcaro mencionou dificuldades relacionadas a R$ 250 milhões envolvendo Tanure e uma obrigação com o Santander. Quadrado respondeu que havia entendido ser possível utilizar as ações da Ambipar para levantar recursos na XP.
Essas operações também se conectavam à aquisição da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), privatizada pelo governo de São Paulo em abril de 2024. Tanure arrematou a companhia por R$ 1 bilhão e concluiu o pagamento em outubro daquele ano, com apoio financeiro de Tércio.
O financiamento envolveu a XP e a Braslight, fundo de pensão dos funcionários da Light, tendo como garantias ações da própria Emae e da Ambipar.
Em novembro, Quadrado propôs uma reorganização dessas obrigações. A ideia era que Vorcaro adquirisse uma dívida junto à XP, liberasse garantias prestadas por Tércio e recebesse participação na Emae, com possibilidade de acesso ao caixa da empresa. Em contrapartida, as ações da Ambipar seriam utilizadas em novos acertos financeiros.
O Banco Central já acompanhava a estrutura. Em conversa de 11 de novembro de 2024, Vorcaro reclamou da atenção da autoridade monetária às operações relacionadas à Ambipar. Quadrado, por sua vez, afirmou que parte de seus ganhos permanecia vinculada a uma operação no Letsbank, instituição integrante do conglomerado Master.
A compra dos papéis também despertou questionamentos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A área técnica identificou indícios de atuação coordenada entre Tércio e os fundos Esna, Texas e Kyra na aquisição de ações da Ambipar em 2024.
A avaliação levou inicialmente à determinação de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) por aumento de participação. Em 2025, entretanto, o colegiado da CVM afastou essa obrigação após uma votação empatada, decidida por voto de qualidade. Prevaleceu o entendimento de que não havia elementos suficientes para caracterizar os fundos como pessoas vinculadas ao controlador.
Paralelamente, outras estruturas financeiras ampliavam as relações entre a Ambipar e o Master. Uma delas envolvia o fundo de investimentos em direitos creditórios Fênix, associado à Everest, empresa de Tércio que figurava como credora da Ambipar.
A Everest também emitiu R$ 700 milhões em debêntures adquiridas integralmente pelo fundo Máxima, cujo cotista era o Banco Master. Essa transação passou a ser investigada pela Polícia Federal diante da suspeita de utilização da estrutura para desviar recursos do banco. A existência da investigação não significa que as suspeitas tenham sido comprovadas.
Os registros também mencionam certificados de depósito bancário (CDBs) de instituições ligadas ao Master que teriam integrado as operações envolvendo a Ambipar. Posteriormente, em meio à crise do banco, esses investimentos teriam sido substituídos por ativos relacionados a pré-precatórios.
Em abril de 2025, quando o Master enfrentava crescente pressão financeira, Vorcaro voltou a discutir maneiras de fortalecer o patrimônio líquido da instituição. Quadrado apontou a possibilidade de obter R$ 500 milhões com uma demanda por ações da Ambipar mantidas pelo fundo Texas.
A estratégia incluía utilizar parte dos recursos para liquidar aproximadamente metade de uma aplicação em CDBs atribuída à Ambipar, mantendo cerca de R$ 250 milhões investidos. A companhia, segundo a reportagem do Valor, nunca reconheceu publicamente a existência de recursos aplicados no Master.
Ainda naquele mês, os interlocutores discutiram uma nova estrutura envolvendo Tanure, Tércio, Emae e XP. Quadrado sugeriu trocar o fundo Esna por uma participação de Tércio na empresa de energia e adquirir cerca de R$ 250 milhões de uma dívida com a corretora, convertendo o valor em participação societária. Vorcaro concordou com a proposta.
As negociações continuaram durante o segundo semestre de 2025, quando a situação financeira do Master já exigia soluções mais urgentes.
Em agosto, Quadrado enviou ao banqueiro uma planilha que, segundo a mensagem, havia sido alinhada entre as equipes de Vorcaro e Tanure. O documento apresentava obrigações de R$ 4,18 bilhões de Tanure com Vorcaro e de R$ 3,76 bilhões no sentido contrário, resultando em um saldo de R$ 426,4 milhões favorável ao então controlador do Master.
Os valores estariam registrados em contratos que incluíam pagamentos com ações da Ligga e da Alliança, empresas ligadas a investimentos de Tanure.
Naquele período, as conversas também revelaram divergências sobre a utilização das ações da Ambipar como garantia. Tércio demonstrava preocupação com a possibilidade de venda dos papéis, enquanto Vorcaro considerava indispensável vinculá-los à operação para obter os recursos pretendidos.
Apesar do impasse, as tratativas prosseguiram. No fim de agosto, Quadrado informou que trabalhava na transferência da custódia das ações e na estruturação de um fundo que poderia receber US$ 100 milhões em papéis.
Em 9 de setembro, Quadrado comunicou a Vorcaro que havia vendido ações da Ambipar e que os recursos seriam utilizados como capital. Três dias depois, informou ter empregado parte dos valores relacionados a precatórios para liquidar R$ 500 milhões em CDBs da companhia, liberando o fundo Texas de obrigações associadas à estrutura. Segundo ele, ainda existia uma dívida de R$ 800 milhões a receber.
A crise ganhou outra dimensão em 24 de setembro de 2025, quando a Ambipar recorreu à Justiça do Rio de Janeiro para obter proteção contra cobranças e vencimentos antecipados de dívidas. A medida cautelar foi concedida no dia seguinte e antecedeu o pedido de recuperação judicial.
A reação do mercado foi imediata. Apenas em 24 de setembro, as ações da empresa perderam mais de 24% de seu valor, iniciando uma sequência de quedas que comprometeu ainda mais a possibilidade de transformar os papéis em recursos financeiros.
Mesmo nesse cenário, as negociações não foram interrompidas. Em 26 de setembro, Quadrado relatou a Vorcaro que havia conversado com Tércio sobre uma estratégia para enfrentar a situação.
A etapa final registrada nas mensagens ocorreu em 20 de outubro, dia em que a Ambipar apresentou formalmente o pedido de recuperação judicial.
Naquela tarde, após uma breve ligação entre os dois, Quadrado cobrou a assinatura de documentos e informou que a operação precisava ser concluída antes do protocolo do pedido.
“Daniel. O pessoal está te esperando para assinar. Temos que fechar hoje aqui com Tércio. Ele vai entrar com o pedido de RJ”, escreveu.
No dia seguinte, Vorcaro questionou a validade de uma carta relacionada à Ambipar e ameaçou desfazer a operação realizada na véspera caso a documentação não fosse corrigida. Quadrado respondeu que havia condicionado o andamento da transação ao recebimento dos documentos necessários, incluindo uma carta do Plena.
Quando a notícia da recuperação judicial chegou ao mercado, em 21 de outubro, as ações da Ambipar encerraram o pregão cotadas a R$ 0,41. A desvalorização praticamente eliminou o valor de mercado da posição que, pouco mais de um ano antes, havia sustentado projeções de ganhos superiores a R$ 1 bilhão.
Procurada pelo Valor Econômico, a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou até o fechamento da reportagem. A Ambipar também não comentou as informações.
Maurício Quadrado afirmou, por meio de nota, que as mensagens tratavam de discussões preliminares sobre operações estruturadas no mercado de capitais, envolvendo participações societárias, negociação de créditos e reorganização de garantias.
Segundo ele, as referências financeiras não devem ser interpretadas isoladamente como indicação de benefícios pessoais aos participantes. Quadrado acrescentou que a estrutura mencionada nas conversas não chegou a ser implementada nos termos discutidos.
Nelson Tanure declarou que não teve acesso às mensagens e negou participação em qualquer atuação coordenada envolvendo ações da Ambipar. Também afirmou não ter obtido benefícios de eventual valorização artificial dos papéis.
O empresário sustentou que a aquisição da Emae pelo Phoenix FIP foi realizada com financiamento privado da XP, instituição que teria avaliado as garantias e seguido os procedimentos de mercado. Tanure reiterou que sua relação com o Banco Master e outras gestoras ocorreu exclusivamente na condição de cliente.










