A Americanas (AMER3) encerrou sua recuperação judicial após a Justiça aprovar o fim do processo iniciado em janeiro de 2023, quando a varejista enfrentava uma crise financeira provocada pela descoberta de uma fraude contábil bilionária. A decisão marca uma nova etapa para a companhia, que agora concentra esforços na recuperação operacional e na consolidação de um modelo de negócios baseado principalmente nas lojas físicas.
O pedido de recuperação judicial havia sido apresentado em 19 de janeiro de 2023, poucas semanas depois de a empresa revelar inconsistências contábeis de aproximadamente R$ 20 bilhões, valor equivalente ao dobro de sua capitalização de mercado na época. Com o agravamento da crise, o endividamento chegou a R$ 40 bilhões, levando a Americanas a buscar proteção judicial para renegociar suas obrigações com os credores.
Durante o processo de reestruturação, a companhia reduziu sua estrutura operacional, fechou unidades e promoveu demissões para adequar despesas e investimentos à nova realidade financeira. Apesar das medidas, os resultados ainda refletem dificuldades: no segundo trimestre de 2026, a Americanas registrou prejuízo líquido de R$ 274 milhões, aumento de 179,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em comunicado ao mercado, a varejista classificou o encerramento da recuperação judicial como um marco em sua trajetória e agradeceu a funcionários, fornecedores, clientes e parceiros pelo apoio durante a crise.
Para o diretor financeiro, Sebastien Durchon, o processo já havia deixado de influenciar significativamente a rotina operacional antes mesmo de sua conclusão formal. Segundo o executivo, a recuperação judicial passou a ser tratada internamente como uma etapa superada, enquanto a administração direcionava sua atenção à transformação dos negócios.
Uma das principais mudanças ocorreu na participação do comércio eletrônico nas operações. Em 2022, o canal digital respondia por 54% dos negócios da Americanas, superando a contribuição das lojas físicas. Atualmente, aproximadamente 96% da operação está concentrada no varejo presencial.
A transformação envolveu a redução do modelo tradicional de vendas digitais com estoque próprio, conhecido como 1P, e das operações de marketplace, ou 3P. Em substituição à antiga estrutura, a companhia passou a priorizar parcerias comerciais, como a firmada com o Magazine Luiza, e a integração dos canais digitais à rede física.
Segundo o presidente da Americanas, Fernando Soares, a estratégia busca utilizar as lojas como centro das operações, aproximando a experiência de compra online da estrutura presencial. O modelo pretende aproveitar a capilaridade da rede para atender consumidores e fortalecer a eficiência comercial.
A administração considera 2026 um período de estabilização do caixa e consolidação das mudanças implementadas desde o início da crise. A expectativa é avançar gradualmente em iniciativas de geração de valor, conforme os indicadores financeiros e operacionais apresentem melhora.
Entre as prioridades estão a utilização de inteligência artificial, o aproveitamento de dados para aprimorar decisões comerciais e o desenvolvimento de novos formatos de lojas. A expansão da rede, entretanto, permanece seletiva.
De acordo com Soares, a Americanas inaugurou aproximadamente cinco ou seis unidades em 2026, além de realizar reinaugurações. O executivo ressaltou que a companhia ainda precisa concluir ajustes em parte relevante das lojas existentes antes de transformar a abertura de novos pontos comerciais em um eixo central de crescimento.
A revisão do tamanho das unidades integra esse processo. Algumas lojas estão sendo adaptadas para estruturas menores, incluindo a conversão de estabelecimentos de dois pavimentos em operações de um único andar, com o objetivo de adequar os espaços às necessidades comerciais.









