O empréstimo de R$ 12 bilhões estruturado para os Correios, no âmbito do plano de reestruturação da estatal, terá custo estimado em cerca de 115% do Certificado de Depósito Interbancário, segundo três pessoas com conhecimento direto das negociações. A taxa ficou abaixo do teto de 120% do CDI estipulado pelo Tesouro Nacional para operações com garantia soberana, condição que reduz substancialmente o risco para as instituições financeiras envolvidas.
Na prática, a taxa equivale a juros pouco acima de 17% ao ano. O percentual contrasta com a primeira proposta apresentada à estatal, que previa custo de 136% do CDI —cerca de 20% ao ano— e acabou rejeitada pelo Tesouro, que se recusou a conceder a garantia da União nas condições iniciais.
A expectativa dos envolvidos é que os recursos sejam liberados até a próxima quinta-feira, dia 18, após a conclusão de trâmites administrativos. O repasse será feito de forma integral e imediata, sem divisão em parcelas. A entrada do dinheiro no caixa é considerada essencial para que a empresa consiga pagar em dia o 13º salário dos funcionários, cujo prazo legal se encerra no dia 20. Como a data cai em um sábado, o pagamento precisa ser realizado até a sexta-feira anterior.
A operação foi estruturada por um consórcio formado por cinco bancos, sendo dois controlados pelo governo federal. Participam do crédito Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander. Banco do Brasil, Caixa e Bradesco ficarão responsáveis por R$ 3 bilhões cada, enquanto Itaú e Santander aportarão R$ 1,5 bilhão cada. A Caixa voltou às negociações após articulação da Casa Civil, que buscou ampliar a participação de instituições públicas no sindicato de bancos.
No custo total da operação está embutida uma taxa de estruturação de 2% sobre o valor do empréstimo, o equivalente a R$ 240 milhões, destinada a cobrir despesas operacionais e financeiras das instituições envolvidas. O contrato prevê prazo total de 15 anos, com carência nos três primeiros anos, período em que os Correios não precisarão amortizar o principal.
Antes da liberação dos recursos, o próximo passo será o envio das condições finais ao Tesouro Nacional, responsável por validar a operação e conceder formalmente a garantia soberana. Paralelamente, o governo federal terá de editar um ato normativo para ampliar o limite de contratação de crédito pelo setor público, atualmente definido pelo Conselho Monetário Nacional. O CMN, composto pelos ministros Fernando Haddad, Simone Tebet e pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, poderá ser convocado extraordinariamente para tratar do tema.
Para 2026, o CMN autorizou R$ 21 bilhões em operações de crédito para estados e municípios, montante já praticamente esgotado, além de R$ 4 bilhões destinados à usina de Angra 3 e R$ 2,4 bilhões para órgãos federais, valores considerados insuficientes para acomodar a operação dos Correios sem ajuste formal do limite.
Internamente, a estatal avalia se será necessário submeter novamente a contratação à diretoria e ao conselho de administração. O colegiado já havia aprovado, anteriormente, uma operação com custo mais elevado, próxima de 136% do CDI. Há discussão jurídica sobre a possibilidade de aproveitar esse aval para a nova transação, agora com condições mais favoráveis. Caso se conclua pela necessidade de nova aprovação, o tema será deliberado após o aval do Tesouro.
As partes também seguem discutindo cláusulas contratuais, como a existência de condicionantes restritivas atreladas ao plano de reestruturação. Entre as possibilidades estão mecanismos de vencimento antecipado ou acionamento da garantia soberana em caso de frustração de resultados operacionais ou financeiros. Esses pontos ainda não foram concluídos.
Inicialmente, os Correios buscavam um financiamento de R$ 20 bilhões, considerado suficiente para bancar integralmente o plano de reestruturação até 2026. A estratégia inclui a regularização de dívidas com fornecedores e bancos, a implementação de um novo programa de demissão voluntária para desligamento de até 15 mil empregados em 2026 e 2027, além da reformulação de cargos, salários e do plano de saúde da companhia.
A contratação de um valor menor do que o inicialmente previsto reduz o custo financeiro da operação, mas aumenta a possibilidade de a estatal precisar recorrer a novo empréstimo ou a um aporte do Tesouro em 2026, ano eleitoral. A própria administração da empresa já admitia a possibilidade de fatiar o crédito como alternativa para viabilizar condições mais favoráveis.
Na nova rodada de negociações, BTG Pactual, Citibank, ABC Brasil e Safra deixaram o consórcio. Parte dessas instituições não aceitou reduzir a taxa de juros, enquanto outras apontaram dificuldades para manter os recursos mobilizados diante da demora na conclusão da operação. Procurados, Banco do Brasil e Caixa não comentaram. Itaú, Bradesco, Santander, Citibank e ABC Brasil não responderam até a publicação deste texto.










