O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou nesta quinta-feira que manifesta diariamente ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sua insatisfação com o patamar da taxa de juros do país, mas reforçou ter plena confiança no trabalho do economista. Em entrevista ao UOL News, o petista declarou que o Brasil reconhecerá futuramente a importância da atuação de Galípolo à frente da autoridade monetária.
O chefe do Executivo demonstrou gratidão pela possibilidade de contar com alguém do calibre de Galípolo no comando do Banco Central. Mesmo com a taxa básica de juros fixada em 15%, Lula não esconde sua posição contrária ao nível atual, repetindo constantemente sua avaliação ao presidente da instituição. O petista traçou um paralelo com a relação que mantinha com Henrique Meirelles, que ocupou o cargo durante seus primeiros mandatos, quando a autonomia formal da autoridade monetária ainda não existia.
Segundo Lula, Meirelles costumava explicar detalhadamente as consequências de cada decisão sobre os juros, expondo os riscos tanto de uma flexibilização quanto da manutenção de uma postura mais restritiva. Essa dinâmica de diálogo franco, segundo o presidente, permitia que as decisões fossem tomadas dentro de uma relação baseada em confiança mútua, mesmo quando havia divergências sobre o caminho ideal.
O presidente enfatizou que sua relação com Galípolo se fundamenta nesse mesmo princípio de confiança. Lula declarou acreditar no trabalho que está sendo desenvolvido pelo atual presidente do Banco Central, ressaltando que não teria como removê-lo do cargo mesmo que desejasse, já que foi ele próprio quem o indicou e o mandato conta com proteção legal de autonomia.
O petista fez questão de destacar a qualidade técnica de Galípolo, referindo-se a ele como um jovem de expertise notável para ocupar posição de tamanha relevância na condução da política monetária brasileira. Para Lula, o país tem sorte de contar com alguém desse perfil no comando do Banco Central, e essa importância será reconhecida pela nação no futuro.
A entrevista também serviu de palco para o presidente direcionar críticas contundentes ao mercado financeiro brasileiro. Lula acusou representantes do setor de não pensarem nos interesses nacionais, mas apenas em seus próprios lucros. Segundo o presidente, há um padrão repetitivo no comportamento desses agentes, que a cada início de ano começam a projetar déficits fiscais e questionar gastos sociais do governo.
Na visão do petista, o sistema financeiro está preocupado exclusivamente em garantir o recebimento de seus rendimentos, sem demonstrar qualquer consideração pela dimensão social das políticas públicas. Lula classificou como gasto tudo aquilo que o governo realiza para melhorar a vida da população mais vulnerável, mas que é visto com desconfiança pelos agentes do mercado.
O presidente citou como exemplo as reações contrárias a aumentos no salário mínimo. Segundo ele, qualquer elevação de cem reais no piso salarial gera uma onda de críticas vindas do mercado, com alegações de que a medida provocará estouro nas contas públicas e disparada inflacionária. Para Lula, essa postura evidencia que esses agentes não têm compromisso com o desenvolvimento do Brasil, apenas com seus próprios interesses financeiros.
O chefe do Executivo defendeu que o papel de um presidente da República não pode ser o de proteger os lucros do sistema financeiro, mas sim trabalhar pela melhoria das condições de vida do povo brasileiro. Essa filosofia, segundo Lula, orienta suas decisões e justifica os investimentos sociais que seu governo realiza, mesmo diante das críticas recorrentes vindas do mercado.
As declarações críticas ao mercado financeiro surgiram após o presidente ser questionado sobre uma aparente contradição. Apesar de indicadores econômicos positivos, como redução da inflação e do desemprego, crescimento da massa salarial e valorização da bolsa de valores, esses resultados não se traduzem em ganhos significativos de popularidade para o governo.
Lula respondeu argumentando que ainda não há campanha eleitoral em andamento, e que faltam oito meses para que o processo se inicie efetivamente. O petista demonstrou confiança de que os números favoráveis da economia se converterão em apoio político quando o debate eleitoral estiver aquecido, projetando que a situação mudará significativamente até outubro.
O presidente aproveitou para relembrar decisões de política fiscal tomadas durante seus primeiros mandatos. Lula mencionou ter elevado o superávit primário a quatro vírgula vinte e cinco por cento do Produto Interno Bruto, uma medida que lhe custou apoio dentro do próprio Partido dos Trabalhadores. Segundo ele, muitos correligionários abandonaram a legenda em razão dessa postura considerada excessivamente ortodoxa em matéria fiscal.
Mesmo tendo implementado esse ajuste próximo a um período eleitoral, Lula sustentou que sua prioridade não estava voltada para a campanha, mas sim para evitar o que classificou como um genocídio contra o país em benefício próprio. O petista deixou claro que não estaria disposto a comprometer a saúde fiscal da nação por interesses eleitorais de curto prazo.
O presidente contrastou sua postura com a do governo anterior, comandado por Jair Bolsonaro. Lula apontou que a gestão passada produziu um déficit fiscal de dois vírgula cinco por cento do PIB sem enfrentar o mesmo grau de críticas por parte do sistema financeiro que ele próprio recebe. Segundo o petista, essa diferença de tratamento evidencia um viés ideológico na atuação desses agentes.
Lula destacou ainda outras decisões polêmicas do governo Bolsonaro que não geraram reação equivalente do mercado financeiro. O presidente mencionou o não pagamento de precatórios e a distribuição de recursos públicos de forma ampla durante o ano eleitoral, medidas que segundo ele mereceriam o mesmo escrutínio aplicado às políticas do atual governo, mas que passaram praticamente sem críticas significativas dos representantes do mercado.








