A trajetória recente das contas previdenciárias voltou ao centro do debate fiscal após dados do Tesouro Nacional indicarem um crescimento expressivo do déficit ao longo da última década. Entre 2015 e 2025, o rombo da Previdência — que inclui trabalhadores da iniciativa privada, servidores públicos federais e militares, entre aposentados e pensionistas — passou de 2,64% para 3,42% do Produto Interno Bruto (PIB).
Em valores corrigidos pelo IPCA de dezembro, o déficit saltou de R$ 271,7 bilhões para R$ 442 bilhões no período, uma expansão real de 62,66%. O avanço ocorreu apesar da reforma da Previdência promulgada em novembro de 2019, que alterou regras de aposentadoria e contribuição em diferentes regimes.
O maior desequilíbrio foi observado em julho de 2020, quando o déficit atingiu 5,59% do PIB, equivalente a R$ 580,6 bilhões, em meio ao impacto da pandemia de covid-19 sobre o mercado de trabalho e a arrecadação previdenciária. A partir desse pico, houve desaceleração do crescimento do rombo, com relativa acomodação em 2024 e 2025. Técnicos, no entanto, avaliam que esse comportamento é transitório.
Segundo analistas, a estabilização recente reflete fatores conjunturais, como crescimento econômico mais robusto, mercado de trabalho formal aquecido e o fim gradual de desonerações. Ao mesmo tempo, as despesas seguem em trajetória de expansão estrutural, enquanto as receitas tendem a perder fôlego diante da expectativa de desaceleração da atividade e do emprego.
Nesse contexto, técnicos do governo e economistas avaliam que uma nova reforma da Previdência Social deverá ser discutida antes do fim da década. A percepção é de que os ajustes de 2019 foram relevantes para conter o ritmo de deterioração, mas insuficientes para garantir sustentabilidade de longo prazo.
A pressão sobre o sistema decorre principalmente de fatores demográficos, como o envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade, além de regras diferenciadas entre regimes. Em entrevista recente, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou que ajustes periódicos são necessários para que o sistema acompanhe o aumento da expectativa de vida, fenômeno considerado estrutural e permanente.
Especialistas destacam que a aparente estabilidade recente mascara uma dinâmica de gastos considerada insustentável. Para Rogério Nagamine, da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o crescimento das despesas continua superior ao do PIB no médio e longo prazo, mesmo após a reforma.
Em 2025, o déficit previdenciário totalizou 3,42% do PIB. Desse montante, o Regime Geral de Previdência Social respondeu pela maior parcela, com rombo de 2,49% do PIB, equivalente a R$ 322 bilhões. O regime próprio dos servidores públicos federais apresentou déficit de 0,52% do PIB, ou R$ 66,6 bilhões, enquanto o sistema dos militares registrou 0,41% do PIB, cerca de R$ 53,3 bilhões.
Apesar de apresentar o menor valor absoluto, o déficit dos militares é apontado como o mais elevado por contribuinte. Já no caso do RGPS, responsável pelo pagamento de quase 30 milhões de benefícios, a despesa ultrapassou R$ 1 trilhão em 2025, o equivalente a 8,1% do PIB. Apenas entre 2024 e 2025, houve crescimento real de 4,1%.
De acordo com Nagamine, o ritmo atual de expansão do gasto previdenciário do regime geral implica duplicação real das despesas a cada 17 anos, patamar considerado incompatível com o teto de crescimento real de gastos e superior ao crescimento potencial da economia. Na avaliação do pesquisador, o debate sobre uma nova reforma deveria ser retomado a partir de 2027.
A contenção temporária do déficit do RGPS também foi influenciada por um aumento real de 5,4% das receitas previdenciárias em 2025, movimento associado ao mercado de trabalho aquecido. Economistas alertam, contudo, que esse impulso tende a se esgotar com a desaceleração da atividade e a proximidade do pleno emprego.
Outro fator citado foi o represamento na concessão de benefícios. Segundo o consultor da Câmara dos Deputados Leonardo Rolim, a fila de pedidos chegou a cerca de 3 milhões no fim de 2025. Considerando que mais da metade desses requerimentos costuma ser concedida, parte relevante da despesa foi apenas postergada, com impacto potencial sobre o déficit futuro.
Na avaliação do economista-chefe da Warren Rena, Felipe Salto, os dados da execução orçamentária indicam pressão contínua da Previdência sobre as contas públicas. Para ele, além de ajustes nos regimes, será necessário rediscutir a indexação de benefícios ao salário mínimo, separando políticas previdenciárias de políticas de mercado de trabalho.
Visão semelhante é compartilhada por Paulo Tafner, do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, que avalia a despesa previdenciária brasileira como elevada para um país ainda em processo de envelhecimento. Segundo ele, sem mudanças estruturais, o sistema poderá enfrentar dificuldades severas de financiamento já na próxima década.
No regime dos militares, a desaceleração do déficit foi associada à Lei nº 13.954/2019, que ampliou a base de contribuintes e elevou gradualmente a alíquota previdenciária. Em 2024, o governo encaminhou ao Congresso um novo projeto para o Sistema de Proteção Social dos Militares, prevendo idade mínima de 55 anos para aposentadoria, com vigência a partir de 2032, caso aprovado.
O Ministério da Defesa informou que projeções atuariais de longo prazo indicam redução gradual da participação das despesas com militares no PIB. Já o Ministério da Previdência Social preferiu não se manifestar sobre os dados.








