O acirramento do conflito no Oriente Médio, desencadeado por ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no fim de semana, introduziu uma variável de incerteza relevante nas projeções do mercado financeiro para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 17 e 18 de março. O cenário-base do mercado continua apontando para uma redução de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, atualmente em 15%, mas analistas reconhecem que a probabilidade de um corte menor, de 0,25 ponto percentual, ganhou peso nos últimos dias.
Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o evento geopolítico eleva a incerteza, mas não altera automaticamente a trajetória da política monetária. Segundo ele, a probabilidade de uma redução de apenas 0,25 ponto base subiu para cerca de 30%, enquanto os 70% restantes ainda favorecem o corte de 0,50 ponto percentual. O executivo avalia que a Selic terminal ao final de 2026 pode sofrer uma elevação marginal de 0,25 ponto percentual, atribuída sobretudo ao prêmio de risco e não a uma alteração estrutural do cenário econômico.
A economista-chefe da Mirae Asset Brasil, Marianna Costa, compartilha a leitura de que o aumento das tensões tende a elevar a cautela do Banco Central, sem alterar, por ora, o cenário-base. Para ela, a variável determinante é a persistência do choque. A analista estima que seria necessária a combinação de petróleo Brent acima de US$ 90 de forma sustentada, câmbio acima da faixa de R$ 5,30 a R$ 5,40, e piora nas expectativas de inflação para 2026 e 2027 para que o Copom optasse por reduzir o ritmo para 0,25 ponto percentual ou sinalizasse uma pausa no ciclo.
Os efeitos imediatos do conflito sobre os mercados foram perceptíveis na abertura da segunda-feira (2), com o petróleo Brent chegando a US$ 80 por barril e o dólar atingindo R$ 5,20. Ao longo do dia, os movimentos perderam força: o Brent recuou para US$ 77 e o câmbio fechou em torno de R$ 5,17, indicando que a reação inicial foi parcialmente absorvida pelos mercados.
O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, alerta que o impacto sobre a inflação doméstica depende do horizonte do choque. Segundo ele, uma alta de 1% na gasolina pode pressionar o IPCA em 0,5 ponto percentual, enquanto uma elevação de 10% no preço do petróleo representa impacto de 0,2 ponto percentual sobre o índice. O ponto central, contudo, é a duração do movimento: choques pontuais tendem a ser absorvidos sem alteração estrutural da política monetária, ao passo que pressões prolongadas exigem resposta da autoridade monetária.
A mediana do Boletim Focus divulgado na mesma data manteve a projeção do IPCA para 2026 em 3,91%, estável em relação à semana anterior e abaixo dos 3,99% registrados um mês antes. Para 2027, a projeção recuou levemente de 3,80% para 3,79%, sinalizando que, até o momento, as expectativas de inflação permanecem relativamente ancoradas.
O mercado precifica atualmente o encerramento do ciclo de cortes em setembro de 2026, antes do período eleitoral, com a Selic alcançando 12,5%. Esse cenário implicaria reduções de 0,50 ponto percentual nas próximas cinco reuniões do Copom. A materialização desse caminho, no entanto, depende da estabilização dos fatores externos e da confirmação da trajetória de desinflação doméstica.
Sung ressalta que o processo de desinflação em curso e a desaceleração da atividade econômica sustentam o cenário-base. A economia brasileira vem operando mais próxima do seu potencial, com redução das pressões de demanda, o que favorece a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário. Uma escalada mais ampla do conflito, contudo, poderia alterar a comunicação do Banco Central.
A XP Investimentos avalia, em relatório, que a alta do petróleo representa um vetor de efeitos ambíguos para o Brasil. Preços mais elevados do Brent tendem a ampliar receitas com royalties, dividendos e exportações, com reflexos positivos no saldo comercial e na arrecadação pública. O mesmo movimento, porém, pressiona os custos de combustíveis e fretes, gerando vetor altista sobre o IPCA ao longo do tempo. O efeito líquido, segundo a instituição, dependerá da persistência do choque e do grau de repasse aos preços domésticos.










