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Juros futuros disparam mais de 50 pontos e curva apaga apostas de corte de 0,50

Com dólar acima de R$ 5,30 e Brent acima de US$ 100 ordens de stop loss amplificaram o movimento

As taxas dos contratos de DI dispararam nesta sexta-feira em meio à piora generalizada dos ativos de risco provocada pela escalada da guerra no Oriente Médio. No pior momento do dia, alguns vencimentos chegaram a acumular alta de mais de 50 pontos-base, movimento amplificado pelo disparo de ordens de stop loss durante a tarde, que forçaram a liquidação de posições e aprofundaram a abertura da curva a termo brasileira.

O impacto foi direto sobre as apostas para a reunião do Copom da semana que vem. A curva, que na véspera precificava chances majoritárias para um corte de 0,25 ponto percentual na Selic com possibilidade minoritária de redução de 0,50 ponto, passou a refletir ao longo da tarde 65% de probabilidade de corte de 0,25 ponto e 35% de chance de manutenção da taxa básica em 15%, cenário que até a véspera não estava no radar do mercado. A analista Laís Costa, da Empiricus Research, descreveu o movimento como uma migração da probabilidade de corte de 0,50 ponto para a manutenção, descartando praticamente por completo o cenário de afrouxamento mais agressivo.

Os números ilustram a intensidade do movimento. O DI para janeiro de 2027 encerrou o dia em 14,32%, alta de 39 pontos-base ante o ajuste anterior de 13,932%. Na ponta longa da curva, o DI para janeiro de 2035 marcava 14,195%, elevação de 34 pontos-base. O DI para janeiro de 2028, um dos contratos mais líquidos do mercado, atingiu a máxima de 13,975% às 14h50, com alta de 56 pontos-base ante o ajuste da véspera, antes de recuar parcialmente.

Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, contextualizou o movimento em perspectiva global. Segundo ele, a abertura de taxas desta sexta-feira foi observada em diversas economias emergentes, incluindo México, Chile, África do Sul e Hungria, reflexo da deterioração do apetite por risco em escala global provocada pela guerra. No Brasil, porém, o movimento foi amplificado pelo disparo dos stops, que segundo o gestor contaminaram os preços além do que o cenário externo justificaria de forma isolada.

O ambiente doméstico já vinha oferecendo razões para cautela antes da piora desta sexta. Na terça-feira, o IBGE havia divulgado o IPCA de fevereiro acima das projeções do mercado, com deterioração qualitativa concentrada em serviços e núcleos de inflação. Nesta manhã, o instituto informou que o volume de serviços avançou 0,3% em janeiro frente a dezembro e 3,3% na comparação anual, acima das estimativas de 0,1% e 2,8%, respectivamente, indicando que a atividade econômica segue aquecida e pressionando o cenário inflacionário.

No exterior, além das preocupações com a guerra, os investidores operavam com dúvidas sobre a capacidade do Federal Reserve de cortar juros no segundo semestre diante de um choque inflacionário gerado pelo petróleo. O rendimento do Treasury de dez anos, referência global para decisões de investimento, subia 1 ponto-base para 4,279%, enquanto o de dois anos, que reflete apostas para os juros de curto prazo nos EUA, recuava 4 pontos-base para 3,727%.

O Copom anunciará sua decisão sobre a Selic na próxima quarta-feira, ao fim de reunião de dois dias. No encontro anterior, em janeiro, o colegiado havia mantido a taxa em 15% e sinalizado que iniciaria um ciclo de cortes em março, antes de os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã darem início ao conflito no Oriente Médio.

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