A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira (29) ocorre sob um diagnóstico compartilhado por economistas de diferentes instituições: o cenário se tornou mais adverso e exige uma atuação mais calibrada da política monetária. Apesar da convergência para um corte de 0,25 ponto percentual na Taxa Selic, a justificativa para esse movimento não está em uma melhora do quadro, mas sim na avaliação de custo-benefício diante de um choque inflacionário externo e de uma atividade doméstica em desaceleração.
Relatórios de casas como Bank of America e J.P. Morgan apontam que a inflação apresentou piora recente, com elevação tanto dos índices cheios quanto dos núcleos, movimento associado à alta do petróleo após o agravamento do conflito no Oriente Médio. Para o J.P. Morgan, embora o resultado do IPCA tenha surpreendido negativamente, houve concentração em itens específicos, especialmente transportes, o que exige uma leitura mais cautelosa sobre a persistência desse choque. A recomendação, segundo o banco, é de “serenidade” na condução da política monetária.
A Planner Investimentos também destaca o papel do cenário externo, apontando que as restrições no Estreito de Ormuz elevaram a volatilidade e mantiveram o preço do petróleo em níveis elevados. Esse ambiente, na visão da casa, torna o processo decisório mais complexo e reforça a necessidade de manter a política monetária restritiva por mais tempo, conforme já indicado na ata da última reunião do Copom.
Ainda assim, parte relevante dos economistas considera que manter a taxa de juros inalterada poderia ter efeitos limitados sobre a inflação e custos elevados para a atividade. Rodolfo Margato, da XP, afirma que a natureza do choque inflacionário — associada a fatores externos — reduz a eficácia de juros mais altos como instrumento de controle, ao mesmo tempo em que aumenta o risco de desaceleração mais intensa da economia. Rodolpho Sartori, da Austin Rating, reforça essa avaliação ao apontar que a atividade já perdeu ritmo relevante nos últimos meses, com crescimento desacelerando de 3,7% para cerca de 2% em 12 meses, o que tornaria ineficiente a manutenção da taxa em níveis atuais apenas para conter a inflação.
A deterioração das expectativas inflacionárias também aparece de forma consistente nas análises. Margato revisou sua projeção para a inflação de 2026 de 3,8% para acima de 5%, movimento acompanhado por Leonardo Costa, do ASA, que também passou a trabalhar com estimativas próximas de 5%. O Bank of America, por sua vez, elevou sua projeção para o horizonte relevante da política monetária, indicando inflação de 3,5% em 2027, enquanto a Austin Rating trabalha com IPCA de 4,74% para o fechamento deste ano. Esse conjunto de revisões reforça a percepção de desancoragem parcial das expectativas.
Diante desse quadro, o consenso entre os especialistas é de continuidade do ciclo de cortes, mas em ritmo mais lento e dependente da evolução do cenário externo. O J.P. Morgan e o Bank of America projetam redução de 0,25 ponto nesta reunião, com o BofA estimando uma taxa terminal em torno de 13,25% ao final de 2026. A Planner Investimentos prevê cortes graduais ao longo do ano, com possibilidade de aceleração apenas se houver estabilização do ambiente geopolítico.
Outras projeções indicam trajetórias semelhantes, mas com diferentes graus de cautela. Margato espera uma aceleração do ritmo de cortes a partir de junho, caso o preço do petróleo recue para a faixa de US$ 80 a US$ 90, enquanto Sartori trabalha com Selic terminal de 12,5%, embora reconheça risco de alta para até 13% se o conflito persistir. Esse patamar mais elevado também aparece nas estimativas de Leonardo Costa e da Suno Research, que veem o Banco Central adotando postura defensiva até que as expectativas inflacionárias voltem a se estabilizar.
Em comum, as análises indicam que o Copom enfrenta um ambiente de elevada incerteza, no qual a condução da política monetária depende menos de um cenário base claro e mais da capacidade de reagir a choques externos e à evolução dos dados. A estratégia predominante, segundo os economistas, é de “parcimônia” e “ajuste fino”, com decisões graduais que buscam equilibrar o controle da inflação com os riscos de desaceleração mais intensa da economia.









