O Boletim Focus divulgado nesta semana pelo Banco Central mostrou que o mercado financeiro revisou para cima as projeções de inflação pelo quarto mês consecutivo para 2026 e pela segunda semana seguida para 2027, numa trajetória de deterioração das expectativas que reflete diretamente os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e suas repercussões na economia brasileira.
O levantamento, que reúne as projeções de cerca de cem economistas e analistas de mercado, indica que o IPCA deve fechar 2026 em 4,36%, ante 4,31% na semana anterior. Para 2027, a estimativa subiu de 3,84% para 3,85%. Embora os ajustes pareçam pequenos em termos absolutos, a persistência do movimento é o que preocupa.
Quatro semanas consecutivas de revisão para cima no horizonte mais próximo e duas seguidas no horizonte seguinte sinalizam que o mercado está incorporando progressivamente os riscos inflacionários da guerra, sem enxergar ainda um ponto de reversão claro.Para entender o significado desses números, é útil lembrar qual é a meta. O Banco Central tem como objetivo manter o IPCA em 3% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O teto da banda está em 4,5%.
Com a projeção atual de 4,36% para 2026, o mercado vê a inflação chegando muito próximo ao limite superior da meta, o que reduz o espaço de manobra do Copom para cortar juros de forma mais agressiva sem comprometer a credibilidade da política monetária.Ainda assim, as perspectivas para a trajetória da Selic não se alteraram na semana. Os analistas consultados pelo Focus mantêm a taxa básica em 12,50% ao fim de 2026 e em 10,50% ao término de 2027, cenário que pressupõe um ciclo de cortes gradual ao longo dos próximos dois anos.
Para a próxima reunião do Copom, marcada para abril, o mercado segue apostando num corte de 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic dos atuais 14,75% para 14,50%. A aposta é consistente com a postura sinalizada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, que disse querer ganhar tempo para entender melhor o cenário antes de acelerar o ritmo de afrouxamento.Para o crescimento econômico, as projeções permaneceram estáveis.
O PIB deve avançar 1,85% em 2026 e 1,80% em 2027, números que refletem um ambiente de atividade moderada num contexto de juros ainda restritivos e incertezas externas. O fato de o mercado não ter revisado as projeções de crescimento para baixo, apesar das revisões de inflação para cima, indica que a percepção predominante é a de um choque inflacionário externo que não necessariamente destrói demanda doméstica de forma imediata, mas que complica a tarefa do Banco Central ao tornar mais custoso o processo de convergência da inflação para a meta.










