O Comitê de Política Monetária reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,00% ao ano, em decisão unânime. Foi o quarto corte consecutivo de igual magnitude — e, como na maioria das vezes, o mercado já havia incorporado o movimento antes mesmo da reunião. O debate, portanto, migrou rapidamente do corte em si para o que vem a seguir. O comunicado reconheceu avanços no processo de desinflação e sinais de moderação da atividade, mas manteve tom cauteloso e não sinalizou direção clara para setembro. Seis especialistas avaliam o resultado.
Para José Áureo, sócio e assessor da Blue3 Investimentos, o comunicado reconheceu avanços no processo de desinflação e sinais de moderação da atividade econômica, mas reforçou que o balanço de riscos permanece relevante. Entre os fatores de pressão sobre a inflação, ele destaca a persistência das expectativas desancoradas, possíveis efeitos de choques no petróleo, no clima e na energia, a resistência da inflação de serviços, eventual depreciação prolongada do câmbio e estímulos ao consumo capazes de manter a economia acima de seu potencial. “Para setembro, o cenário permanece aberto e condicionado aos próximos dados. A tendência permanece de decisões graduais e avaliadas reunião a reunião”, afirma.
Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, aponta um contraste relevante no comunicado: o cenário corrente melhorou — com o BC reconhecendo moderação gradual da atividade e desaceleração da inflação —, mas a comunicação prospectiva seguiu cautelosa. “O Copom manteve a mensagem de que a magnitude total do ciclo será definida à luz de novos dados, sem qualquer pré-compromisso, e reforçou o balanço de riscos assimétrico para cima”, avalia. Na sua leitura, o Copom mantém aberta a possibilidade de continuidade do ciclo em setembro, mas ressalta os argumentos para uma pausa. Os fatores decisivos, segundo ele, serão a evolução dos riscos fiscais — agravados pela proximidade das eleições — e cambiais, diante de um ambiente externo sujeito a alta volatilidade em commodities, tarifas e possíveis altas de juros pelo Fed.
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, resume o dilema com clareza: “O Banco Central reconhece uma desaceleração da inflação e da atividade econômica. A má notícia é que ele continua bastante preocupado com as expectativas de inflação e com o risco fiscal.” Para Spyer, o comunicado retirou trechos que davam mais abertura para a continuidade dos cortes e reforçou a dependência dos dados. “Na prática, o Banco Central deixou a porta aberta para um novo corte, mas não quis se comprometer”, conclui.
Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, chama atenção para a projeção do modelo de referência do BC no horizonte relevante, que ficou em 3,2% — acima da meta de 3,0%. Ele também destaca a menção à desancoragem adicional das expectativas de inflação mais longas, que, segundo o próprio BC, aumenta o custo da desinflação. Ainda assim, Oliveira avalia que o texto deixa espaço para mais cortes. “Acreditamos que o BC deverá cortar mais uma vez a taxa básica em 0,25 p.p, para 13,75%”, projeta, ressalvando que aguardará a ata para maior clareza sobre o que foi discutido internamente.
Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos, faz uma crítica direta à forma como o comunicado tratou o IPCA-15. “Ele afirma que o índice desacelerou, o que é verdade, e lembra que a inflação ainda está acima do teto da meta, também é verdade. Só que, com a continuidade da guerra, esse IPCA pode voltar a acelerar”, pondera. Para Dumas, praticamente não há mais espaço de atuação da política monetária para 2026 — com expectativa de inflação em torno de 5% — nem para 2027, com projeção em 4,2%. A decisão, na sua leitura, foi baseada no horizonte de 2028, quando a inflação projetada está em 3,2%. O estrategista também ressalta o ponto que dificulta a sinalização de novos cortes: a assimetria altista no balanço de riscos, com mais fatores capazes de elevar a inflação do que reduzi-la — entre eles, a desancoragem das expectativas por conta dos choques de oferta da guerra e um hiato do produto positivo, indicando que o PIB efetivo está acima do potencial.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, avalia que o comunicado desta reunião foi mais claro do que o da anterior, com destaque para a sinalização de moderação da atividade econômica. “O mercado de trabalho continua aquecido, mas a política monetária bastante contracionista parece ter começado a produzir efeitos nos últimos meses”, analisa. Para Camargo, a preocupação central continua sendo as expectativas de inflação desancoradas, que podem dificultar o controle dos preços. Sua conclusão converge com a dos demais: “O comunicado foi bastante claro ao afirmar que a magnitude do ciclo de cortes dependerá da evolução dos dados. Os próximos passos da política monetária permanecem totalmente em aberto.”
A FIEMG, por sua vez, recebeu positivamente a decisão, mas com ressalvas. Na avaliação da entidade, o corte ainda é insuficiente para mitigar os impactos prolongados dos juros elevados sobre a atividade produtiva, os investimentos e a geração de empregos. “Um ciclo mais consistente de queda dos juros depende de um ambiente macroeconômico mais equilibrado, com responsabilidade fiscal, previsibilidade e maior efetividade da política monetária”, afirma João Gabriel Pio, economista-chefe da Federação. A entidade defende que a coordenação entre as políticas monetária e fiscal é condição necessária para que o processo de desinflação ocorra com menor custo para a produção e o emprego.









